Leviathan
Lembro quando a mostrei Leviathan a primeira vez: ela ouvia em música extrema, Obituary e Death; na jukebox de um dia maravilhoso que tivemos, achei Children of Bodom, e coloquei "Bodom After Midnight", depois Korn, "Good God" e Metallica, "Until It Sleeps" ("nossa cara! Como você é depressivo", me disse; bom, quem escolheria Until It Sleeps, sendo que havia tantas outras disponíveis? No entanto, adoro essa música) - era muito óbvio que estava diante de algo maravilhoso, reluzente num sorriso de cem sóis - mas não enxerguei. ...Ok... - num bate-papo, mostrei Leviathan, o comentário foi "cara, isso é agonia pura", e minha resposta foi "gosto, porque parece que é a última música que ele cantará na vida"; tenho algum tipo de admiração por coisas extraídas a custo da própria vida, acho que concede mais valor, preenche a obra com algo tão único e valioso, mas tanto, que não tem como precificar: a dor do próprio artista, às vezes, a própria vida dele vai dentro desse artefato - a música mostrada a ela foi "Mine Portrait in Scars", "meu retrato em cicatrizes", uma música que diz algo como "do silêncio amargo (em oposição) a últimas palavras ditas".
Isso é agonia, já diria o Anathema "The Sweet Suffering" ou o Swallow the Sun "The Justice of Suffering"; é um pouco de sangue que enche a parte de baixo dos pulmões - algo dolorido e demorado. É essa a pena para traidores?
As últimas palavras sóbrias de minha mãe, segundo relatos, e peço desculpas por enfiar esse tema no meio, mas pra mim, em algum ponto eles se cruzam, foram "Deus, proteja meus filhos", "cuide de meus filhos", algo assim. Já delirando, ela falava algo sobre o "Zé Bonitinho", personagem cômico do qual gostava - talvez, quando você perde a sanidade, o gatilho mental seja repercutir aquilo que fez você dar umas boas risadas em vida, durante sua lucidez, e daí lembrar de um comediante, situação, piada, enquanto o corpo desliga nalguns casos. Em Oposição ao meu texto anterior, que deve ter tido uns 4 leitores (minha média de visitas a esse espaço), nesse aqui apresento certo ressentimento com a Deidade: na Bíblia diz que os loucos não herdarão o Reino dos Céus, coisa que de certa forma, me põe sob risco, dada minha linhagem; mas minha mãe partiu sem sanidade, mesmo tendo sido uma serva fiel e devota da religião, tendo sua sanidade seqüestrada pela dor extrema (cerca de 24 horas de gemidos quase sem interrupção). De que valeu a fidelidade dela a isso ou no matrimônio? - Tendo meu pai não estado ao lado dela, ele fugiu e se aborreceu de sua dor, demonstrou raiva até, como se fosse algo feito por capricho ou provocação; Não quero dizer que fidelidade é pouca coisa - na verdade, acho que só agora, após 03 décadas, entendo o quanto isso vale de fato, mas pondo em perspectiva: ela aguerrida como um bom soldado a essa causa, foi embora sem saber que estava indo, porque já não tinha capacidade de raciocínio - e talvez esse Reino, segundo as regras que ela obedecia, já não pudesse ser acessado. E então, de que valeu toda sua entrega a essa crença? Parece uma dedicação vã; e eu, me vejo transformado numa praga, como o escorpião que ao partilhar a travessia com o sapinho na fábula, o acaba envenenando. É isso que me tornei? Uma porra de traidor, devido essas questões invisíveis? Isso que me fez ser o que fui? Se eu amava minha ex-companheira, por quê fui ingrato e não-entregue? Não aprendi (previamente, obviamente, porque caralho, era nítida a natureza da pessoa que estava ao meu lado), a dar valor?! - a pessoa que mais admirei, com a qual era uma dádiva partilhar os dias, traí e envenenei.
Suas palavras são arrepios na minha espinha
O passado está dilacerado
Não adianta eu rezar com minhas palavras mortas e um coração honesto;
A causalidade de minhas ações e não-ações, foi tecida - em minha defesa, digo que não, não estava pronto; eu, esse ser, não estava pronto
Assim como uma serpente, só enxerguei o calor, e ele me guiou, sem ter eu noção de minha virulência, fui apenas seguindo, pondo-a em algum lugar - longe do nós, longe de mim mesmo
Teias e ninhos, densas e quentes respectivamente, agora em silêncio, no odor do vazio. Meu retrato de cicatrizes está quase pronto (?); no verso, memorandum - meu arrependimento lavará seu coração, minhas lágrimas, a necessidade;
Antes de dormir, imagino a rosa branca que nunca entreguei
Imagino a caminhada tranqüila e leve de um sábado de manhã na pracinha, após o café da manhã (nunca proposto)
Imagino os planos de inverno irrealizados
Sua vida pode estar num solstício, clarificada e suave com consistência maior que a que teve em minha presença - eu me balanço numa dança lenta, no negrume da terra acima do limite polar
(Sinto sua falta)

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