Música, Pretensão, Propósito
'stou em 2003 novamente - sabe o que é interessante? Todos os dias de 2003 me parecem ensolarados! A última semana de março daquele ano estava linda - claro, lembro das noites chuvosas, frias, mas os dias não! Todos eram ensolarados! Lembro de minha primeira coletânea de metal, escolhida a dedo pr'um amigo baixar:
Slipknot, Static-X, In Flames, Soilwork, Deftones, Alice in Chains (!! - ironia... Mas enfim: olha, pra mim AiC é metal, Hard Rock no mínimo; não acho nenhum pouco parecido com o rolê meio punk do Pearl Jam e cia); não tinha Korn, pois desse tinha álbuns inteiros; entre outras coisas.
De noite, meus amigos iam pra lá: o E., guitarrista da banda "Teorema", da qual fazia parte, junto comigo; G., meu melhor amigo, baterista; Rick, que também tocava guitarra, H., que mostrou Metallica, Megadeth, Soundgarden e Sonata Artica pro povo; e tinham as meninas grunge... Realmente, acho que não passei muito do ano de 2003, me pego repetindo; todas amantes de Nirvana e Pearl Jam, e a B., que gostava muito do Ozzy também. Ainda naquele ano, comprei meu primeiro CD pirata do Children of Bodom, cujo vocal/guitarra, faleceu mal tinha 40 anos, em 2020.
* Parênteses: detestava Pearl Jam, pois adorava Creed, e sempre faziam aquela maldita comparação entre os dois. Apesar de admitir que a voz era similar, nunca me desceu: pra mim, instrumental, estrutura e letras, eram completamente distintas.
* Parênteses dois: pra mim CoB tem notória influência de Death, do Chuck Schuldiner. Um dia tive a agradável surpresa de subir pra ver a A., e ela estava ouvindo "Are You Dead Yet?" (título que me parece uma profecia. Já me perguntaram isso antes, e talvez na próxima a resposta seja "I died, bro"); eu adoro essa música, e adoro CoB, e fui comentar isso - ela discordou. Como assim?! Só pode ser por isso que não estamos mais juntos! (risos) Como não notar a presença de Death na guitarra e voz de Alexi Laiho?! É nítido que uma das inspirações de Alexi, era o Schuldiner - e tal qual ele, morreu cedo inclusive.
(Parênteses fechado)
Numa das musiquinhas de meu primeiro grupo musical, ainda sem baixo, eu caí na coisa da voz meio que por acidente, porque não tinha instrumento - em casa tinha uma guitarra, mas o método de ensino do meu pai, me afastou do instrumento; brincava com o teclado, mas nada sério, tirava música alguma; na primeira reunião, com dois guitarristas competentes pra idade de 14/15 anos, o G. que já era um baita baterista, e sem um baixo disponível na sala, peguei o microfone e me arrisquei. Foi horrível: uns berros meio desconexos, falta de ajuste de timbre aparente, pois na igreja, cantava bem mais grave, mas rock no geral, pede-se bons e proeminentes agudos. Mas me achei. Fizemos a música "Não Brigue com Ninguém", um tipo de Matanza antes do Matanza, mas muito mais porco e mal-feito; "Eu Descanso", uma balada triste; "Precognição", na qual numa das estrofes eu berrava igual um fumante taquicárdico "toda uma vida perdida" - puta que pariu, eu já tinha escrito meus dias (risos); entre outras - não sabia Legião, nem Iron, AC/DC, nada disso direito; não tinha apreciação por esses grupos. Em casa ouvia com meu pai, no toca-discos velho, Embaixadores de Sião, Grupo Hágios, Lionel Richie, Johnny Rivers (que achava que era negro, porque a capa da coletânea era P&B), The Shadows, The Ventures e o que a MTV me mostrava que era rock alternativo/moderno da época, como Puddle of Mudd, Silverchair e tals, além de New Metal. Ou seja, bagagem zero, nesse momento pra cantar coisas que me pediam ou queriam ouvir. Se as pessoas estavam no Power Metal, eu estava no New; quando passaram pro Thrash, e meus amigos e eu rompemos e nunca mais fomos os mesmos, passei muito longe do Thrash, salvo o mais "mainstream", vindo a conhecer melhor o gênero, de cerca de um ano pra cá - na época, isso já em 2004, após o New, passei a ouvir muito Metal Gótico, Tristania, Moonspell, Type O Negative, além de Rammstein, Brujeria, Immortal, que eram as bandas que consegui material. Quando estavam no Symphonic, falando de Nightwish, Epica, Therion, estava me afundando no Doom. Então acho que não tive uma turma como naqueles tempos - posso pontuar essa existência, como antes-2003/pós-2003; lembro da B., amante de Nirvana e Ozzy, lendo uma de minhas letras, e me perguntando se eu gostaria que as pessoas lessem aquilo - nunca me fiz essa pergunta: pra mim aquilo se tratava de expressão, de algo "per si", algo que apenas existe; claro houveram luzes no ensino médio, a galera que estudava a noite e ia pro After Dark, Aeroflight e Ocean, dançar goth rock, EBM e afins, mas passados esses hiatos, ao olhar pra trás, minha turma era o G. Adorava, claro, o E., o Rick, com quem tive várias conversas profundas, e cujo coração, fazia 05 anos pertencia a uma moça chamada B. e todos que sempre se reuniam na minha casa ou na de Rick, mas minha turma, a pessoa com a qual me sentia conectado, era ele. Dos poucos acertos que tive em minha última relação, foi apresentar ele para a A.; lembrar dos dois no mesmo cômodo, comendo queijo junto comigo no fim de ano, agora, nessa noite escura, enchem meus olhos de luz e orvalho. Eu adorei aquele momento.
... Bom, naquele ano, 2003, era pra ter adquirido um baixo, mas não rolou; queria um de 5 cordas, porque o Korn usava um de 5 cordas - vi um todo preto no centro, Santa Efigênia, que tinha chaves pra ligar os captadores, e fiquei apaixonado, mas não aconteceu. Certa vez, indo pra lá com o H. e Rick, amigos queridos e grandes guitarristas, ao pegar um dos baixos pra brincar, me disseram que eu dedilhava bem. Foi bom ouvir aquilo, pena que nunca se realizou.
No mesmo ano, na semana do dia 27/maio, meu pai fez uma festa pra minha mãe (ela havia falecido alguns meses antes). Raras foram as vezes que isso aconteceu nos anos anteriores, na verdade, nesse momento não lembro de vez nenhuma na qual isso aconteceu, mas parece que ele acreditava que pondo toda a fé dele nisso, as coisas iriam mudar. A casa, ou melhor, a sala, ficou decorada com balões coloridos; haviam quadros com desenhos que ele fez pra ela na parede (ele desenhava bem) - bom ela não apareceu pra festa. Eu ignorava um pouco isso, na verdade achava engraçado até, outras vezes me incomodava; a decoração ficou meses a fio na sala, acho que ele estava esperando alguma notícia dela. Pouco antes do final do ano, ele teve um sonho: ele disse que ela apareceu pra ele e disse "Mario, eu 'stou bem"; ele disse que ao acordar, falou "É claro que você está bem, mas por quê você ao invés de mim?! Eu que deveria ter ido". Também tive um sonho em 2003, mesmo ignorando a situação toda - e é estranho, porque esse ano foi péssimo por esse evento, mas ao mesmo tempo, foi cheio de vida e amor, aventuras e projetos, sonhos; no sonho que tive, eu via minha mãe sentada na poltrona da sala, careca ainda, devido o tratamento, e ela parecia contente; eu subia pra laje, o céu estava muito azul e eu empinava pipa, coisa que não fazia no mundo real. Eu já era uma pessoa meio lenta, com tendência a atrasar, mas desenvolvi uma cegueira seletiva: achar que tudo está bem, mesmo quando não estava - me tornei um hábil enganador, tanto, que sequer notava que me enganava; e também aprimorei a arte da espera: de certa forma, assim como meu pai, eu tinha alguma esperança de que ligassem pra casa dizendo que ela estava andando no cemitério desorientada, maltrapilha e de que teriam que buscá-la. Não admitia isso, mas no fundo, quando ele acordava de madrugada e ficava ao lado do telefone, também esperava isso, numa expectativa secreta.
Tal qual meu pai, passei a ser uma pessoa, parece, que vive sempre atrasada, mas assim, MUITO atrasada, sempre fora do tempo de certa forma, e de mim mesmo: bom, ele nunca deu uma festa cheia de balões pra minha mãe, enquanto ela era viva; tal qual ele, parece que os melhores presentes, tento dar quando as pessoas já não estão em minha vida também. Nesse ano, 12/Jun, tentei presentear, mas já não estava ao meu lado - bom, pelo menos dei algo nos anos anteriores na mesma data (risos), o que me torna "ok" pelo menos. E eu ainda espero. Eu 'stou "fora" do tempo muitas vezes, acho que maioria das vezes; o estilo que mais gosto de metal, é o Doom, que é o mais lento e arrastado. Eu sou uma máquina de esperar, parece que fui feito pra isso; mas uma vez que a espera acaba, não é como se voltasse a 2003, meus 15 anos de verdade: algo estranho acontece, e o tempo escorre por minhas mãos, as pessoas que amo já não estão ao lado, a paisagem muda, mas cara... Quando que isso mudou? Eu nem consigo perceber. Ainda sou uma maldita criança.
Aventaram que escrever não é uma forma "adulta" de enfrentar isso, esse evento - eu discordo completamente; tenho pouco a oferecer pra esse mundo, mas tenho histórias, e não acho que elas sejam pouco. Assumir como sou fraco me torna menos ou um "não-homem"?; ou há uma fórmula, um modus operandi que devo seguir pra ser um, sem admitir fraqueza? Eu discordo disso tudo: de fato, ainda não sou um homem, acho, mas se me tornasse um, ser um que não esperam, não é ser menor.
Talvez ainda tenha 15 anos, congelei aí, como o Mr. Freeze do Batman, um dos vilões que mais gosto - isso pode ser verdade, e como adolescente no espírito, mancada e inconseqüencia são muito mais constantes do que gostaria; mas tenho uma admiração genuína, paixão genuína (mal-aplicada), devaneios genuínos. Então, é ao enterrar as histórias, que vem a maturidade? Isso me parece confuso, contraditório, clichê: achava que maturidade tinha relação com entender as próprias histórias e narrativas.
Precisamos de narrativa, como uma música ou banda costuma ter, se quisermos sermos lembrados ou celebrados; quando não se tem, é como o protagonista de "Fragmentado", com 23 pessoas lutando pelo controle. Há pessoas com a narrativa da vida comum, as que se vêem como algum tipo de atração, as que são realeza de certa forma, por aí vai. Mas há o ponto de estabilidade delas - não sei onde está o meu, mas me atrai a idéia do herói trágico:
Um dos últimos, acho que o último por sinal, filme que assisti, foi "Beleza Americana"; é um baita filme, e pra variar, não compartilhei minha impressão mais funda sobre aquilo, ficando numa porra de comentário superficial sobre os seios tortos da protagonista (eu já disse que me odeio? - risos - ), ou a violência do pai enrustido do vizinho traficante, coisa um tanto óbvia; mas Kevin Spacey, teve sua morte decretada no momento no qual se "libertou". Ele não conseguiu reconquistar sua esposa, amolecer o coração sólido dela, nem ouvir um perdão sincero da filha, e a garota nova, era apenas uma ilusão - no momento que ele entendeu, os três juntos, sua família, estavam felizes na roda gigante, dentro dele. E então ele foi ceifado. Eu vejo alguma beleza nisso, não só americana (tu dum dass!), mas algo muito humano; é o discurso, a história dos que perdem, e esses, são incontáveis, são a maioria esmagadora dentre nós. No entanto, apesar de achar belo, tenho algum medo de que uma vez que me ache, assim também, com espera e tudo, com ou sem filha e esposa, com esforço ou não, eu me vá.

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