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Eu fecho meus olhos - toda poeira e imagens se tornam cores bonitas no céu, todo calor que agora está suave, quase morto, é uma vibração, uma cavidade na qual me escondo. Você comprimiu seu coração em chamas contra meu peito, minha pele derreteu, meus nervos ficaram dormentes, mas agora que se foi, essa marca está cauterizada. Talvez agora eu tenha um coração. Nenhuma mácula entrará nessa marca que suas mãos bonitas feriram na minha essência.
Atravessamos os dias, afastados por quilômetros, cegos por nossas capacidades, com as mãos torcidas contra o peito, tentando segurar alguma esperança esquecida, algo que seja leve como uma pena, mas forte como um metal. Cada período, juntos apenas pela distância dos sonhos, que é quase nula, uma proximidade de sabedoria angelical, que a qualquer coisa atinge e capta, com a velocidade de um desejo.
Quando acordo, tudo tem a cor sépia d'uma foto antiga, exceto pelos seus olhos claros; o Sol é gentil e passa pela abertura da porta, a poeira se assenta calmamente no chão, a cama ainda está vazia e meus bolsos, bom, esses poderiam estar mais cheios. Mas tudo tem seu tempo.
Atravessamos dias e dias, separados, até o momento de nosso prestar de contas. Eu sou apenas esse respirar, essa esperança submersa, esse garoto meio besta olhando a serração com admiração, sou as lágrimas escondidas olhando para as rochas que seguram as ondas, sou a luta da água contra as pedras. Sou minha teimosia, meu amor, minha contemplação, minha contradição, meu flerte, meus sonhos, meu vazio, meu fracasso. Um fragmento de tanto faz e uma obsessão; a lembrança de suas palavras "vou embora", a ferida fria e funda: nenhuma piedade na faca do açougueiro, penetra fina funda fria, como um assassinato por encomenda.
Agora tudo é lembrança e silêncio. O pássaro se alimenta de minha carne, você segura a gaiola. Eu fecho meus olhos, quase vejo o vento a levando, quase a vejo fora de algo que talvez seja a minha pequena existência. Esse quarto é pequeno, mas te garanto que vale muito; não há como explicar a beleza da neve pra quem nunca saiu de São Paulo; nossos olhos apesar da habilidade e admiração, estavam cegos um para o outro; mas creio que você ainda não descobriu isso. Tudo é levado pelo vento e ao abrir meus olhos para a escuridão das pálpebras, tudo que vejo é a luz de sua expressão úmida, com vista cerrada, matizada por cores cálidas como um pôr-do-Sol. Uma luz cristã em seus dias, uma rocha de Lázaro ao meus. Andando, caminhando mesmo sem sair do lugar, seu sorriso que sempre se mostra aqui no oeste. Eu sou o melhor Erro de sua vida; você é um oceano.

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