Livro Vital

    Apesar de toda a minha teimosia, que permanece aqui nessa vida como essa neblina que persiste a manhã toda, não posso negar que ela tem sua beleza e seu propósito. Muitos dizem "vira a página". Não sei se 'stou louco, talvez, mas a página está virada. Eu aposto que tenho uma leitura consistente.


   O mesmo mar, o mesmo dia; a propósito das gotas que caem do céu, como lágrimas pétreas, as pedras das fundas dos anjos, a propósito disso que vem como neve e se funde como chuva e encharcam minha camiseta xadrez, e minha mochila com nuvens vermelhas. A página está virada, mas é o mesmo livro; o leitor desce seus dedos sobre a lâmina das páginas, agora finas, cortantes e indiferentes, como a faca de um torturador. O livro está com seus capítulos seguintes selados, infelizmente. Esses capítulos têm sido um tanto terríveis e um pouco monótonos, mas eu entendo:


   Quando li "A Linha de Sombra", de Joseph Conrad, o começo foi um tanto excitante e grandioso, mas houve um longo trecho de uma tensão monótona e constante, o trecho no qual o navio estava preso, e um tripulante agourento deixava o clima ainda mais pesado. É terrível um navio que ao traçar sua rota, o vento não vem, e ele encontra-se praticamente preso. Eu me percebo como algo do mar, uma face atrativa, mas com profundezas que eu mesmo ignoro. Pacato, morno, receptivo; me torno cálido quando está no escuro: vem uma figura solar, com seu calor, e me aquece, porém eu demoro a assimilar a temperatura - quando ela se vai e se torna trevas, eu 'stou quente e a noite é uma majestade de luminares marítimos; 'stou ansioso por um novo encontro. É quase como a maldição da lua com o Sol.


   Teimoso como a água que demora a esquentar, como a neblina que demora a passar, como uma releitura de uma página ou capítulo que não ficou muito claro ou que foi tão impressionante, que é necessário ler novamente; como a chuva que encharca meus cabelos e os tornam mais compridos. Mas a página foi virada, a questão é que não concluí a leitura do livro. Algumas coisas são grandes demais pra caberem em apenas uma página, não?


   Os primeiros capítulos, tive dificuldade em assimilar - a história me prendeu, houveram paradoxos, partes bem-humoradas, partes dramáticas, algumas comoventes, e devo admitir que apesar de gostar de ler, tive dificuldade em ler de forma comprometida trechos importantes da história, trechos que só fui compreender após uma demorada "digestão". O primeiro tomo teve cerca de 705 páginas, e uns pequenos poslúdios, no entanto creio que na ocasião só absorvi bem mesmo, cerca de 178 páginas.


   Uma vez eu ouvi que se você quiser ser um bom pianista de verdade, você tem não só que ler a partitura, mas conversar com ela - a partitura e seus olhos e mãos devem estar em diálogo, e há alguns autores que sinto que te facilitam isso: Dostoiévski, Amós Oz, talvez. Mas independente do autor, a chave para entender o coração de um livro ou partitura, e coloco os dois na mesma "caixa", pois ambos pedem leitura ativa, é dialogar e prestar atenção nos signos e no que eles querem dizer. Hoje eu 'stou escrevendo a página de número 507 (em 16/Jun/'022), desde a suspensão de minha leitura.


   A página está virada, sou um leitor melhor, aparentemente, mais qualificado ao menos, mas assim como inúmeras obras que vira-mexe releio e que foram as que me ajudaram a me tornar quem eu sou, essa, de leitura inconclusa, assim como os "Irmãos Karamázov" que faz anos que tenho que concluir, mas cujos capítulos lidos mexem em meu interior até hoje, essa também, mexe em meu interior, e meus olhos lacrimejam ao pensar como poderiam ser os próximos capítulos.


   Eu sou apenas uma pessoa, um esqueleto exposto de falhas e incertezas, a "pele", a camada protetiva de existência, derretida e ferida como a de uma criança queimada. Quem vê meus ossos? Quem vê meu sangue? ... Os olhos serenos, os ouvidos atentos, ávidos por uma história, ávidos por tocar as páginas, ao mesmo tempo em que esse esqueleto redige a sua, que por hora, está em sua linha de sombra.


    Eu lembro das histórias, das horas, das descrições, e essas me encharcam os pulmões, os sentidos e o espírito, tal qual uma chuva torrencial. Bela história. Imperfeita, torcida, mas bela, muito bela.  

   Não era a história mais divertida do mundo, eu próprio não sou um protagonista tão leve e bem-humorado, não mais ao menos, mas essa história era linda, e potencialmente riquíssima em detalhes e beleza e amor. Sinto falta desse livro.

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