Something/Stricken
Ontem, mais um sonho - a propósito, se olhar a foto, cada estrela é um dia no qual sonhei com Ela; a freqüência média é um tanto menor que essa, mas dá para se ter uma noção. Logo serão dois anos desde que as coisas acabaram, e eu 'stou, só, quase o mesmo tanto de tempo que permanecemos juntos. Parei mais uma noite enquanto caminho para casa, para reler conversas antigas, e achar sua voz; toda noite que caminho para casa e passo em frente a hamburgueria, um de nossos últimos passeios antes do pior dia, vejo nós dois lá dentro, e ouço as palavras que deixei de falar, sobre como queria fazer direito, meu pedido de perdão e como estava feliz de tê-la ao meu lado, mas não disse nada, ao invés disso, ofereci meu hambúrguer e disse "pega mais!", com um "sorriso na voz"; procuro no aplicativo sua voz, pr'além de "esse é o Lucas, nunca está cem porcento em nada", que ecoa nas paredes - poucos áudios, na época não era de usar muito esse recurso, não sei hoje ou com outras pessoas usa-o mais talvez; muitos memes, e um misto de sentimentos ao revisitar o histórico do aplicativo de mensagens:
Umas boas risadas (Ela é/era mais brincalhona do que costumo me lembrar; havia me esquecido desse aspecto apesar de seu senso de humor ter sido decisivo para que eu parasse para pedir seu número de telefone lá atrás) - talvez por isso a casa tenha ficado tão triste com sua ausência: sentimos falta de seu bom humor e doçura discreta; uma boa dose de vergonha... Eu sei, eu sei, eu me dizia ser displicente, mas realmente... Não posso dizer que Ela não teve paciência comigo: por vezes eu me comportava como um adolescente maluco e relapso, tive vontade de dar uns bons tabefes no meu "eu" de 2019~2020. Por vezes de fato o "Homem" da relação era Ela, e não foi legal tê-la jogado nessa posição, dava pra ter agido com mais "vontade"; mais boas risadas, pelos memes e comentários; mais raiva pelo tanto que eu a fazia esperar: sabe aquele trecho da música "Stay" do U2, já citada nesse blog, que diz "far away, so close"? - pois bem, eu permiti que minha vida a dois fosse exatamente isso: eu estava sempre a poucos metros dela, apenas alguns lances de escada e um corredor, no entanto, da forma como me portava e agia e (não) cuidava, parecia que tínhamos uma relação a distância; talvez o fosse: ela num estágio da vida e eu, em outro, ela com algum medo do relógio, e eu achando que tinha todo tempo do mundo. Sinto falta dela. Seu peso, voz, seus trejeitos, zoeiras, propostas, abraços, de sua paixão e zelo com animais. Nunca a achei alguém de "gênio difícil", como Ela mesma e alguns a definiram; sempre a achei um doce, competente, sagaz, forte inclusive, apesar de ter lá suas fraquezas, como todos; mas como também já disse, as palavras estavam "soterradas dentro de mim".
Eu lembro do término de meu relacionamento mais longo: doeu demais, mas após um ano, comecei a ficar com outra pessoa - o ano subseqüente, 2014, teve apaixonamento, inclusive com a minha ex daquela época, elogiando a garota que passei a gostar, dizendo que ela era muito bonita e afins; de alguma forma eu consegui isso que é o que acho que chamam de "seguir em frente", embora na boa, eu acho que isso é outra coisa, mas as pessoas sempre mentem pra si; mas com Ela essa situação não se repetiu, e nem me parece possível isso, apesar de aparecer de quando em quando, alguém que sinto ser possível um bom Caminho, mesmo não sendo Ela. Broncas, boas risadas, corações roxos (pra mim o coração roxo era mais legal que o vermelho, porque na minha cabeça, era o coração "completo", com emoção e razão. É irônico um cara incompleto mandar isso como símbolo de amor. Uma vez me pareceu triste por eu não mandar um coração vermelho pra ela no aplicativo de mensagens, e eu nunca expliquei o porquê, não só disso mas de um monte de outras coisas; Ela também não sabe que durante todo o tempo no qual estivemos juntos e até hoje, eu nunca mandei um coração roxo para ninguém que não fosse Ela); umas cobranças, umas desculpas esfarrapadas minhas; me li dizendo "acho que preciso de ajuda", uns poucos meses antes do fim e antes dela ter descoberto que eu era um sacana dissimulado. Deveria ter dito "socorro", "salve-me de mim", ou algo que apontasse a luz no fim do mundo, pra que as partes se unissem e fizesse o que uma relação pede: servir, reconhecer-se. Realmente acho que se condensar nossos quase dois anos em tempo físico, descontando os desencontros, enrolações, atrasos, trabalho e afins, devo ter permanecido uns cinco, sete meses se muito, de fato ao lado dela. Se tivesse trocado a pornografia por "hey, quer entrar? A água está quentinha!", quantas horas a mais não teria passado ao lado dela? ... Na verdade, acho que dá menos que isso, menos que seis meses de presença, mas 'stou sendo otimista. Se nossa história se passasse nos anos '80, numa realidade paralela, na qual não havia WhatsApp, ou internet pra uso auto-destrutivo, provavelmente teria sido mais legal e sólido. Como um bom drink, sem exagero, mas autêntico, de sabor doce e seco. É uma assinatura e tanto.
Hoje, não haverá uma cafeteira mal embrulhada me esperando, com eu atrasado pra tentar pagar algo legal pra Ela - que coisa interessante, eu nunca menti nesse ponto, eu sempre estive fora do tempo: em 2019, mesmo tendo outras alternativas, mesmo saindo com outras pessoas, eu quis passar essa data de hoje tomando café com Ela; eu acho que não queria dar o braço a torcer de que eu, que podia ter várias pessoas, ou pensava que podia, tinha caído em sua rede. Ou teia, vai saber. Eu era um idiota. Nesse mesmo dia, eu me atrasei e não consegui uma mesa pra nós nos barzinhos. Nossa primeira comemoração e eu estava atrasado; eu sempre estive atrasado em várias partes de minha vida - infelizmente, não seria na vida a dois, com essa pessoa especial que seria diferente. Hoje também não tenho nas mãos uma camisa da Wonder Woman; também não a darei uma xícara ou algo para sua bateria. Se hoje eu estivesse ao seu lado, com a consciência que tenho, dado o tanto que sofri, eu teria pego meu pagamento adiantado e feito melhor, muito melhor e mais legal do que já fiz: eu nunca fui uma pessoa que se antecipava sobre as coisas, eu sempre fui uma pessoa de improviso, improviso tosco por vezes, diga-se de passagem, e isso no ano que nos conhecemos, impediu de comermos algo legal, porque pra variar, eu estava atrasado, como relatado acima. Eu subo as escadas de casa, e me vejo lavando seu tapete e Ela me dizendo "Lucas, você não está pronto". Talvez tivesse razão; era um domingo, um Sol bonito e cálido de dezembro, eu estava triste, mas sua batida em minha porta me deu uma alegria que não admiti. As palavras ficaram presas em mim. Mas hoje, iria para algum parque com Ela, com boas bebidas; ou shopping, caso estivesse a chover; eu pagaria e deixaria uma surpresa guardada na mochila; ou um café em algum lugar elegante, talvez um passeio na Paulista, talvez eu pedisse que me contasse mais sobre, suas histórias, suas vitórias, derrotas, frustrações, pequenas alegrias. Se tivesse continuado no teclado, que tipo de musicista seria? Já foi na umbanda? Quais são seus orixás? Vamos ouvir algo do Death? Ou dos Beatles, Screaming Trees, Katatonia; Something dos Beatles, Unfurl do Katatonia, Stricken do Disturbed... Eu gosto muito do Schuldiner!; Eu adorava quando dormia ao meu lado; adorava e achava engraçado o jeito rabugento que fazia quando em semi-sono eu fazia umas perguntas brincando e com as palavras moles de sono quase dizia "Lucas, fica quieto e me deixa dormir!". Poucas vezes consegui ouvir e prestar atenção no som de seu coração; deveria ter tentado mais, ter esse som guardado dentro de mim. Tudo que era importante, eu não disse. Apesar de tudo, seja o que aconteceu de bom ou de ruim, não me arrependo, não me arrependo desse trecho de vida: me arrependo somente de não ter estado "pronto", fazendo de nossa convivência o mesmo improviso que fazia de minha vida no geral. Infelizmente naquele momento, era só o que eu tinha a oferecer. És muito especial pra ficar apenas improvisando, e eu paguei caro por não ter percebido isso a tempo e traçado um plano - se tivesse elaborado um, tenho certeza que sua boa vontade iria aquecer essas idéias, mas eu nunca tive um plano pra nós, menos ainda pra mim. Eu não consegui me salvar.
...Mais boas risadas; ouço sua voz num áudio antigo, um misto de algo severo com algo dócil; algumas tristezas desconhecidas, algumas expectativas; as fotos que tirava dela dormindo ou abraçada com os gatos. Nós formávamos um casal bonito, uma pena eu ter sido tão idiota. Precisei de dois anos pra entender a fundo palavras que me disse em 2019, sobre amor e entrega, palavras de maio daquele ano; demorei dois anos pra entender o que é um "Amor grand' hotel".
As coisas estão um tanto vazias sem sua presença; sempre que esfria, lembro de dias decisivos. Gostaria de ter acordado hoje e a ter chamado pra caminhar após um café na padaria; um presente, talvez discreto e um passeio, fotos nossas e postadas em rede social - é, é pra isso que elas servem... Demorei, mas entendi. Sinceramente, eu não sabia, não percebia assim. Ela me dá certo temor: muitos peixes têm veneno, Ela deve saber disso por minha via, mas tocou-me num lugar especial e agora, por hora, não sei mais o que fazer. Uma paralisia espiritual. Meu coração fracassou, e agora tudo que sinto se trata de sua falta. Mas talvez, esteja bem. Qual é a colheita que se obtém d'uma semeadura de lágrimas?

.jpeg)
Comentários
Postar um comentário