D(r)ead
Se me perguntarem algo como "o que eu acho da vida", a primeira impressão que tenho dentro de mim mesmo, é que não gosto muito dela - imediatamente eu pondero "puxa, aqui é legal, é bonito, tem coisa gostosa e tals", mas no geral, salvo alguns momentos e situações e pessoas e coisas, a vida me parece uma coisa insossa; parece ter gosto de "tanto faz", e é confusa, pouco controlável...
Antes mesmo de minha "quebra", de um ano e meio atrás, antes mesmo de 2019, ano do qual vivo falando bem, já havia me ocorrido que era muito estranho, ou antes eu sentia isso, de como muitas coisas não se mantinham. Ok, devo admitir, sempre tive problemas com constância, na escola mesmo, por exemplo, 1998, na 4ª série, com 10 anos, era tido como um aluno brilhante, e de fato o era, mas ao mesmo tempo, eu era mais faltoso que a média, e isso se manteve durante toda minha vida escolar. Se me perguntarem algo sobre trigonometria ou matrizes, saberei nada, simplesmente porque a seqüência de aulas na escola que dava conta dessa matéria eu me ausentei, se não em todas, em quase todas as aulas, e isso é apenas um dos exemplos.
Não 'stou aqui pra lamber feridas, apesar de parecer: minha família era quebrada, e minha mãe, infelizmente teve três filhos - dois, mais o marido...; no entanto, isso não é exclusividade minha, e houve gente que passou por situações mais terríveis que as que passei, e são mais fortes que eu. Penso às vezes, que se tivesse passado por algo mais áspero, talvez, eu fosse mais forte, melhor ou fosse capaz de fazer o que tem que ser feito. Eu lembro quando uma pessoa muito querida me disse, não com essas palavras, mas algo como "ser estranho uma pessoa com esse 'cérebro', trabalhar como peão", e entendo o estranhamento dEla, mas não acho que o raciocínio deva ser por aí: essa distinção de trabalhos, é falsa, e tem a ver com o estilo de vida aqui no Brasil, pois nós separamos as pessoas não por uma casta racial ou cultural, mas sim pelo seu tipo de acesso no que diz respeito às finanças. Aqui nós temos a noção de "sub-emprego", e isso não acontece em todos lugares do mundo, isso é um dos traços daqui, e inteligência, é apenas uma palavra. Não sou mais inteligente que um rapaz 10 anos mais novo que eu só que num país menos desigual, tipo sei lá, um finlandês médio - essa noção também é falsa.
Me parece que o tipo de custo que você paga para assimilar e aprender algumas coisas/habilidades, é alto de mais, e sim, eu 'stou reclamando. Acho isso um saco. Não basta isso aqui ser desprovido de prazer, mas não prazer barato, como o de amizades que em pouco tempo serão mortas, ou da dopamina de pagar/estar num ambiente caro ou sexo casual; passei por essas coisas, mas me parece haver um delay horrível entre você ter a ferramenta e passar pela situação, e o preço cobrado é alguém que você gosta de verdade ir embora, ou uma pessoa se vai daqui dessa existência e você não conseguiu pagar o devido a ela, entre outras coisas, igualmente caras. Na escola, se você erra uma lição, por mais tapado que você seja, uma vez assimilada, está tudo certo: você não perde pessoas ou algum sentido do corpo ou ferramenta cognitiva, por ter sido estúpido. Você paga em mensalidade ou tempo, mas o preço disso, e o risco do dia-a-dia, é imensurável.
E mais: sinto que há um certo "custo de cansaço": eu sei que tudo é narrativa, não passa disso, embora em alguns casos, as versões para uma mesma história sejam mais ou menos verificáveis, mas quando paro pra tentar reconstruir quem eu era por exemplo, em 2017, 2018, especialmente nesse último, mesmo com todo movimento da vida afetiva e até social em certo nível, me parece que minha capacidade de investimento mental para qualquer coisa, estava num patamar muito baixo, talvez dos mais baixos que tive, parando pra tentar medir isso no presente; - hoje, 2022, cinco anos passados e alguns traumas, especialmente os auto-infligidos por burrice e inépcia, essa capacidade parece ter se restabelecido. Mas a que preço? Eu quero correr o risco de fazer projetos e correr atrás deles, mesmo sabendo agora, do tipo de coisa que pode acontecer no caminho, e mais: dentro de uma "vida", que não me parece ter nenhum "gosto": tudo é arrastado, meio triste e tals... Soa desolado e bizarramente rápido também. Às vezes quando falo ou sou abordado sobre algum tema áspero, eu dou risada, e já me aconteceu de acharem que eu 'stava a debochar ou não 'stava levando a sério, etc; numa das últimas conversas ásperas que tive, Ela me perguntou "por quê está rindo?!"... Ah se soubesse... É quase uma risada de tristeza; é uma risada por não acreditar que algo está acontecendo. Tem coisa que até hoje não acredito que aconteceu, coisas que têm mais de duas décadas de ocorridas. Algo que toca num ponto tão íntimo, e não posso desabar, na hora nem consigo ou percebo, e o que me sobra é o riso.
Pois bem, cinco anos atrás, era despreocupado e relaxado, e isso me levou a uns dois pontos maravilhosos e o resto de "tanto faz" ou "inferno". Não é lamber feridas, só 'stou a pensar, sobre o que caralhos é isso: dar o melhor de si não basta, e nem é possível fazer isso o tempo todo: eu dava meu melhor no tênis no ginásio, mas não fui chamado pra nenhum campeonato; dei meu melhor em alguns do lugares pelos quais passei, mas não permitiram que eu ficasse; ironicamente, durante um período de 14 anos, 2008 até aqui, três pessoas deram seu melhor pra mim, e eu fui incapaz de dar 40% do que sou para elas. Venho tentando fazer isso, especialmente no trabalho, e no planejamento das pessoas que devo pagar, mas faltam muitos pontos: sou um tio ausente, não chamo velhos amigos; na verdade vivo num tipo de equilíbrio muito estranho: não quero falar com pessoas, mas preciso e pior, acho que, aparentemente, sou bom em falar com elas, em ouvir, e existem conversas que me são aprazíveis, ironicamente. Eu tenho o fantasma de minhas falhas, sempre que 'stou com alguém interessante do sexo oposto, e penso "eu não posso fazer isso"; eu não posso ser um enganador, não de novo, isso sem falar em outros problemas.
Pode ser que encontre as respostas que quero/preciso, mais a frente; e isso não é uma carta de suicídio: eu corro (literalmente), leio, medito, tenho tentado estudar e fazer algum projeto mínimo de vida; inclusive penso se esse não é um texto insensato, como já fiz um por aqui; mas eu ainda não achei isso aqui tão legal assim. Se essa for uma reflexão errada, não é por mal; não tenho prazer em fazer escolhas ruins, não conscientemente ao menos. As melhores experiências que tive, estão muito pra trás, coisas de 2008 pra trás, ou consegui estragar todas, quando se tratam das recentes; as coisas que achei mais coloridas e gostosas e até... Sublimes; fora delas, tirando meus gatos e a música, a única sensação que tenho é "é isso?! A vida é isso?"... Eu 'stou de saco cheio disso aqui, mas a menos que me ocorra um acidente, não posso largar isso. Fora que eu ficaria puto da mesma forma: devo muita gente e odiaria sair dessa devendo pessoas.
Eu sei que parte da solução passa por ter mais amor e tolerância, e tenho alguns desses traços; sou complacente, e penso, mesmo que eventualmente fora de timing totalmente, nas coisas. Gosto de apreciar as coisas pequenas; mas ao mesmo tempo, é perigoso, parece que lidar consigo e com pessoas, é algo complexo demais. Nunca se sabe se você terá que enfrenta uma vaidade muito grande ou se você, como a droga de um Eduard Mãos de Tesoura, não vai acabar pondo cicatrizes no afeto de outra pessoa, talvez cortando uma veia aqui ou ali. Isso me entristece muito. Me parece um equilíbrio muito sensível entre o realizar e a impossibilidade, entre um passado que te projeta cinco anos de conseqüências e um presente sacal, moroso. Essa experiência me parece um tipo muito especial de descompasso. (Leia uma morte terrível).



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