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"(...) mas ele não deve ter me escutado porque seguiu falando. "Perto do reservatório! Uma vez ela tropeçou nas suas raízes! Isso foi na época em que eu estava lhe fazendo a corte! Ela caiu e cortou a mão! Um corte pequeno, mas nunca esqueci! Isso foi há muito tempo!" "Mas na sua vida parece que foi ontem, certo?" "Ontem! Hoje! Cinco minutos atrás! Agora!" Apontou os olhos para o chão. "Ela vivia me implorando para abandonar o jornalismo! Queria que eu ficasse em casa!" Sacudiu a cabeça e disse "Mas eu precisava de certas coisas, também!" Olhou para o chão, depois de volta para mim. Perguntei "E então, o que você fez?" "Durante a maior parte de nosso casamento, eu a tratei como se ela não tivesse importância! Voltava para casa somente entre uma guerra e outra e a deixava sozinha por meses a fio! Sempre havia guerra!" (...)

   Perguntei o que aconteceu para ele parar de ser correspondente de guerra. Ele disse "Descobri que o que eu queria era ficar em um único lugar com uma única pessoa!" "Então você voltou para casa para ficar?" "Escolhi ela em vez da guerra! E a primeira coisa que fiz quando voltei, antes mesmo de ir para casa, foi ir ao parque e derrubar aquela árvore! Foi no meio da noite! Achei que alguém tentaria me impedir, mas ninguém tentou! Trouxe os pedaços para casa junto comigo! Transformei aquela árvore nessa cama! Foi a cama que dividimos nos últimos anos que passamos juntos! Gostaria de ter compreendido melhor a mim mesmo mais cedo!" Perguntei "Qual foi sua última guerra?" Ele disse "Cortar aquela árvore foi a minha última guerra!" Perguntei quem tinha vencido, o que para mim era uma boa pergunta, pois lhe daria a chance de dizer que ele tinha vencido e isso o deixaria orgulhoso. Ele disse "O machado venceu! É sempre assim!" (...)

***

   (...)"mas você devia estar em casa quando eu cheguei." "Gostaria de estar, mas foi impossível." "Você devia ter tornado possível." "Não posso tornar possível o impossível." "Mas devia." Ela disse "Cheguei em casa assim que pude." E aí ela começou a chorar.

   O machado estava vencendo."


* Diálogos entre Oskar Schell e Sr. Black e Oskar Schell e Srª. Schell, respectivamente; excertos das páginas 179 e 188 de "Extremamente Alto e Incrivelmente Perto", de Jonathan Safran Foer.


*******


   Minha casa está suja como minha alma - num primeiro olhar, parece tudo ok, mas basta se deixar um tempo parado no ambiente, que se nota a poeira e a sujeira que os sentimentos de estimação fazem, inclusive em lugares indevidos; emoções que são lavadas apenas com água, sem nenhum tipo de sabão. Uma das decisões que sabia que era a melhor, no sentido d'eu ter razão, mas que acabei acatando a opção que Ela me propôs, foi ter tirado o plástico de proteção do colchão. A cama na qual deito, de vez em vez, uma das filhotes insiste em marcar com seu odor, justamente a mais dócil de todas; por sugestão que conseguir arrancar, se chamaria "Dorothy", mas acabou por ser "Yuna", a gata. Eu lembro desse nome, Dorothy, por conta do Mágico de Oz, que assisti com algo como 08 ou 09 anos de idade; lembro que nessa história, assim como na minha, também havia alguém sem coração, em uma jornada para obter um; creio que nomes são como veias e pontes entre núcleos de vida: os nomes presentes em nossa vida, raramente são à toa, creio. Os significados deles me importam. Talvez por isso, parei ao lado de alguém com "amor" no nome, e Ela buscou e continuou na busca de "luz". Algumas de suas últimas palavras endereçadas de forma dócil para mim, tinham relação com isso: luz, que metaforicamente eu que deveria ter-lha fornecido, mas falhei. Mas voltando - a capa de superficialidade que revestia meus pensamentos também foi retirada, e eles agora estão manchados com os odores dos sentimentos de estimação: tristeza, saudade, revolta, ressentimento, vergonha, culpa, raiva, angústia, tristeza, cansaço, saudade, culpa, vazio, tristeza, desnorteamento; qual dos reis perdeu a coroa? Eu fico a pensar e pensar e pensar, em todo desconforto que eu gerei, na raiva sentida em relação a minha presença nas últimas semanas, às vezes, um desconforto que queria ser conforto a todo custo, queria ser calor e abraço, mas abusei das conseqüências, e não houve tempo para perdão. Eu entendo. ... Será que era bom estar em minha presença? O que me conectava a Ela?; em retrospectiva, mantive palavras seladas por tempo demais, usando minhas ações como uma criança que displicente, brinca de jogar dardos com gente passando na sala; minha caixa de Pandora, só tinha palavras dentro, nenhum ouro ou prata... Eu páro para refletir e me parece que havia um interesse muito especial em se conectar a algo que soava como "o outro lado", algo distante, ou aparentemente distante, diferente: o jovem mundano, amante de Black Metal se relaciona com uma evangélica; o ocidental com uma oriental; magro, com uma gorda; o jovem promíscuo com uma moça cuja vida afetiva esteve ocupada pela mesma pessoa por quase uma década antes de meu advento; o "pobre" com uma ""rica"". Pontes, pontes e mais pontes, todas falharam, como veias rotas, acabaram numa hemorragia sutil, mas eficiente: talvez não usei concreto o bastante; talvez por não ser engenheiro nem arquiteto, não fiz os procedimentos na ordem adequada, não fiz plano algum, apenas fui fazendo, de qualquer jeito, e todas as vezes, e assim como um muro grande sem uma boa sustentação, os tijolos e a falta deles foram cedendo e as peças caíram todas; tijolos sobre Ela e sobre mim. Sinto que meus membros quebraram com a queda dos detritos, da ponte equivocada que eu mesmo erigi, e feri uma pessoa inocente. Ao menos Ela está bem agora, mas eu ainda 'stou em hemorragia. A ponte entre o Céu e o Inferno, é a própria Terra, e talvez, me entendendo como um planeta, me desmanchando em nervos, abrindo meu corpo, cheio de galhos que vertem sangue, quis fazer-me como ponte entre os pensamentos e o Nada, entre a esperança e a dor, e gravito, tal qual seria um planeta ao redor de um sistema solar menos raro que o nosso com sua estrela solitária, ao redor de um sistema com vários sóis, o Sol da Fraqueza, o Sol da expectativa, o Sol das coisas bonitas, o Sol das reminiscências, e tantos outros quanto possíveis. Isso me torna um Homem fraco, me parece, um tanto infantil, infelizmente até: o lamento afasta, gera repulsa; Ela disse não gostar de insistência; se brinquei com lâminas, natural seria algum acidente severo e suas conseqüências - mas eu lamento, "encho o saco", me puno. Eu lamento, e isso me torna feio por dentro, como uma árvore queimada, como nervos mal cicatrizados - no entanto, quantos e quantos não se ajoelham ante o Muro das Lamentações, pedindo auxílio, Perdão, Reparação e afins? ... É demais pedir a Providência, para que sane meus erros, mas no limiar, qual sentimento curaria as falhas que fiz? Nenhuma teve malevolência, todas foram instinto e desvio de um caráter não formado. Quantos não se lamentam?





   Todo Lamento é um testemunho de um tipo de limiar atingido pela face mais frágil de nosso ser, a entrada da Ponte entre a vida e o desespero, entre o estar aqui e o Apagamento; Ela, ao lamentar-se de mim, esticou seu amor até um limite próximo do rompimento, e a sensação disso é dura como rocha: é quase uma litografia espiritual. Eu lamentei ter sido uma criança medieval, brincando com armas, e nessa, o amor, o companheirismo, que era algo que tinha, sofreu um profundo corte de uma alabarda que achei divertido segurar. Tudo que julgava ser diversão, tornou-se arrependimento e lágrimas; nEla, frustração e raiva, que por fim tornou-se fuga.



[00:16]: 'stou pra chegar em casa...

[00:16]: Vc acha que seria demais te ver um pouco?

[00:16]: Se não der, td bem


[00:27]: Estou com sono. Mas tudo bem



(~01h: luz suave e indireta, noite fresca e morna. Sem lágrimas, apenas expectativa e calor, uma pausa suave sobre os sentimentos. Quente e macia, vozes mais próximas do sussurro, mãos que amolecem a lombar de muitos pesos levantados, repouso necessário. Ouve-se a respiração. Seus olhos estavam na terra de Morpheu; os meus em algum lugar entre Vênus e Hades)



   ... No sonho dessa semana a vi afastada, o ambiente um tanto cinzento, como um dia nublado de inverno. Com algo como uma adaga em sua mão dominante, contornou o interior de uma lareira portátil, demarcando, sulcando um pouco mais o contorno de onde o fogo é aceso. O que isso significa?

   Ela me parece distante, eu pareço distante. Eu olho meu cronograma de pagamentos; meu planner já não tem a ilustração de herói algum, e que coisa: passado um ano e meio, agora sim aprendi a usar um planner. As páginas do planner de 2020, dado com muito afeto, têm sua esmagadora maioria em branco. Demorei demais pra aprender a usar isso, desde que ganhei o primeiro; sendo assim, quanto tempo eu demoro em aprender a construir o amor?; Eu gostaria MUITO de estar "dentro" do tempo ao menos uma vez na vida. Tudo passa e quando me encontro, tudo e todos já foram; um convite para um café, e o som, "minha vida está completamente refeita", reverbera como uma pressão negativa, tremulando meu coração e esperança, quase a estourar meus tímpanos e pulmões.


...Mas um adendo sobre "intensidade": se "entregar completamente", não é intensidade. Não é nem mesmo "se entregar". Pessoas costumam ser viciadas em alguma emoção em específico, variando de acordo com seu gênio, e creio ter sido um poço delas, mesmo mostrando-me como um ser humano pouco confiável (e infelizmente, o era); o que é o intenso, senão alguém que se entrega às cegas a uma pessoa ou situação, sem ter um plano ou fio condutor? Talvez, tanto quanto eu, estava desorientada. ... Isso não me soa justo, mas quem sou pra falar de Justiça? De acerto em acerto, de Erro em Erro, a imagem criada é quase como uma fotografia microscópica: as retinas são imagens de oceanos, os neurônios de galáxias: acho que 'stou a dizer uma coisa, mas na verdade, se trata de algo de natureza diversa. A ligação entre um e outro, é o próprio Homem, e seu sangue cansado e quente, pulsando nas veias como rios subterrâneos. Rios que assim como algo que Ela me fez, sorrateira e constante, imprimem suas próprias litografias na crosta terrestre. São a ligação entre a contemplação e o pesadelo.






...A adaga em sua mão no meu sonho, creio, estava escrevendo suas deliberações, sulcadas na lenha; eu próprio era essa, a madeira em chamas, seu sacrifício e revolta, o fogo era a liturgia, purificação e expurgo. A lareira era pequena porque o intervalo de tempo nosso foi relativamente curto: se Ela viver até os 80 anos, eu terei sido menos de 2,5% de sua estada nessa Terra. A chama queimava azul no sonho; parecia um ritual feito antes que a luz do pré-amanhecer estivesse toda matizada de amarelo; tudo isso numa praia, suave, e Ela a usar uma túnica escura.

... Agora me passa, que por vezes contam-se histórias ao redor do fogo; e esse, quantas histórias ele tem para nos contar? Da mesma forma que o machado sempre vence, talvez nesse sonho tenha sido a adaga ferindo a madeira a grande vencedora.

   Quanto calor um espírito agüenta?





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