Um dia de janeiro, um verão que aguarda seu fim

 




  Era noite, das últimas noites, embora não soubesse ou não quisesse acreditar - uma da manhã, numa noite sem "Irmão do Jorel", o quarto em semi-luz, deitada como anjo, protegendo as constelações, a luz das palavras não ditas nos assistindo, em pé, ou melhor, flutuando frente ao guarda-roupa. 



- Posso subir?


- 'stou com sono, mas póde



   A fotografia foi batida. O dia tinha sido ensolarado e quente como um conforto - ninguém no corredor, apenas eu ouvia meus passos. Demora-se muito pra entender quem se é; isso é uma pena. E se tivesse eu me compreendido? Mas passou não é mesmo? Não sou dono de nada, talvez nem de minhas lágrimas, até os ferimentos são apenas fotos que minha posteridade tentará entender o que são; nem os machucados me pertencem - Wipe away your black tears.


    Caminhei em linha reta dois quilômetros sob o luar - à esquerda, você estava equivocada: não são apenas lojas de colchão; cada passo, cada respirar, eu piso o mesmo caminho que uma miríade de pessoas pisaram: quanta alegria, frustração e orações meus pulmões respiram e meus pés percorrem? Preste atenção: à direita, uma miríade de árvores, quase uma floresta, e nelas, o conhecimento de épocas anteriores a nossa; enquanto projeto a memória da luz atrás de minhas retinas, enquanto caminho essa linha reta, sob o luar eu ouço o sussurro de todas as árvores, das que se tornaram jornal e das que se tornaram a flecha de um caçador; e elas falam todos os segredos e esperanças, ainda que em idiomas que eu não compreendo. As árvores são todas sábias. A cama sobre a qual estava deitada, talvez tivesse sido feita de uma árvore que testemunhou tantos milagres quanto um padre.

   

   Eu respiro, reflito, me envolvo, relembro; eu sou uma árvore tentando tocar o céu, eu sou a seiva que escorre de seus olhos. Minhas raízes estão protegidas pela escuridão, meu alimento é o mesmo ar que carregou todas as nossas palavras. Eu incendeio, minha vida arde, mas ainda tenho isso, ainda tenho vida; eu queimo por dentro, mas nada impede que os galhos e raízes se esforcem para pontos ainda mais distantes. Eu sou o crepitar desses dias em chamas. Milhares de vidas gritam através de mim, mesmo que não se possa ouvir.






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