Beloved

 




   Eu acordei todo dolorido hoje; faz frio, está nublado - um dos climas que remete diretamente a ela, talvez por conta de Santos, que estava assim quando visitamos, então passei a associar a ela, além de alguns de nossos encontros decisivos terem acontecido sob um clima como esse: 12/06; um domingo na Paulista e descida para comer tex-mex; (um dos) dias de perdão e ela me deu umas montanhas de Magic como "presente de reconciliação" - nesse dia estava com uma blusa preta e echarpe; estava muito bonita e elegante; e claro, muitas outras datas; hoje o Iron toca aqui em São Paulo, mais-ou-menos perto de casa, do mesmo jeito que foi em 2019 e, nessa ocasião, ela estava no show e nos vemos após o término. Foi gostosa aquela noite, aquele dia, aquela fase. Sinto saudades dela, da companhia dela. Ela andava com sachê na bolsa pra dar para cachorrinhos; eu não podia ter deixado uma pessoa assim passar. Mas enfim - ontem, ou melhor, hoje, vi uma pessoa que fez parte da vida dela enquanto assistência - um socorro procurado por minha causa, por sinal, devido aos traumas recém-causados por mim próximo ao final de nosso relacionamento - ela evitou olhar pra mim; com certeza sabe muito sobre, e tem suas conclusões; mas quando a percebi, perguntei como estava, como andava sua vida. Ela, minha ex, já não passa mais com ela e essa me disse que a garota em questão, "é um espírito livre". Esse termo "livre", ainda me deixa um tanto confuso, talvez ecos do Sartre mal-lido de minha adolescência, que agora está a cobrar sua taxa de displicência, mas mais que isso, a frase me impressionou pelo seu conteúdo um tanto "místico": quando estávamos juntos por apenas uns poucos meses, e eu já estava dando dores de cabeça pro senso de segurança dela - "Lucas, seu FB cheira a estrogênio", foi uma das frases que na época, e pra ser honesto até hoje acho engraçadas, embora eu considere hoje em dia que eu não deveria achar alguma graça disso, mas minha reação ainda é dessa forma; as cartas tiradas diziam que EU, era um espírito livre, e que era muito difícil obter a chave de meu coração, etc, etc - ou seja, num primeiro momento, essa frase adjetivante, "essa pessoa é um espírito livre", era atribuída a mim, não a ela, então fiquei surpreso ao ouvir isso ontem a noite, ainda mais vindo de alguém que esteve tão próxima de nosso fim e do após; ironicamente, de certa forma, quem está preso sou eu, embora considere isso uma impressão um tanto rasa, algo que faz sentido apenas na superfície, mas quando você mergulha nas coisas, verifica que não se trata disso. Eu tenho opções, posso mudar de país por exemplo, caso o queira, mas isso não quer dizer que sou livre daquilo que me move. Uma moça com o mesmo nome que ela, pediu socorro para um amigo e eu, após essa mesma noite, e a deixarmos na madrugada gelada, em frente a porta de sua casa - ela nos chamou de "anjos". É engraçado, cada final de semana que passa, algo acontece e é como se indiretamente tocasse em seu rosto ou mãos. Se fossem dadas cartas de tarot como adjetivo para as pessoas, ela seria "O Carro", e eu "O Eremita", ou talvez "O Enforcado" - penso isso nesse momento. Eu não sei se estas cartas combinam entre si, só sei que eu adoro esse carro, se é que me entende. Eu acredito atualmente, que a única direção possível em última instância, é "pra dentro", e ela, eu lembro de umas duas vezes, bem brava, uma delas comigo, e outra com uma outra pessoa após mim, vociferar "minha vida é pra frente"; de fato, o carro só conhece essa direção e a ré; quem dá de verdade dimensões ao carro são os caminhos, as estradas, não ele em si. Ser livre talvez seja sempre estar na estrada, e ela a te levar nas dimensões da vida. Novamente, na própria percepção, a do carro, a única direção que existe é pra frente. E a ré, que deve ser usada apenas em momentos específicos. Eu gostaria MUITO de estar ao lado dela agora; mas enfim, prosseguindo: o sonho.






   Como dizia, acordei todo dolorido, faz bastante frio, embora eu não ligue, na verdade até prefiro, apesar de ficar sentido pelas pessoas que recolhem reciclagem na rua e pelos moradores dessa mesma. Primeiro tive um sonho de teor erótico - não acho que ele signifique nada demais, pode inclusive ser por conta de meu tempo de abstinência que esse tipo de sonho vêm acontecendo com mais freqüência ultimamente, ao menos é o que faz sentido quando penso no assunto. Após isso, me vi caminhando na rua, era noite, e havia um carro ou outro na rua e crianças de rua. No meio da rua, vi vários cacos de vidro no chão, espalhados num comprimento de uns sete metros, talvez, e uma criança de rua, com algo como sete anos passava por eles. Ele era mais escuro que eu, mas não chegava a ser negro, usava uma calça de moletom com duas listras brancas do lado ao longo do comprimento da perna, uma camisa escura de manga comprida, e ele tinha os olhos claros, eram verdes, quase como os olhos dela. Eu o chamei e falei pra tomar cuidado com o vidro, que também era verde, como cacos de garrafa de Heineken, e disse pra não pisar ali - ele já havia pisado e passado por lá, então reparei que ele estava descalço; fiquei numa breve suspensão, então ele me mostrou seu pé, que não tinha cortes, sangue ou cacos visíveis. Claro que devia haver alguma farpa, mas ter pisado em tudo aquilo e estar andando normalmente e sem sangrar, foi bem impressionante.


   Em algum momento que não recordo, em simultâneo, vi algumas das pessoas que freqüentam o lugar no qual trabalho, e após passar pelo menino, após a região um tanto degradada como o centro, com vários detritos e casinhas de entulho, tinha um parque enorme. Eu entrei lá, enquanto que em paralelo, um de meus amigos estava vivendo uma situação erótica com uma mulher que ele havia cortejado, uma mulher que nunca vi, de cabelos pretos, vestido tubinho numa cor próxima ao cobre, aparentando ter quase 50 anos, talvez até um pouco mais que isso. O rosto dela tinha um aspecto bronzeado.


   Então eu entrei no parque - era grande, mas não como um Ibira ou Villa-Lobos, com uma mureta bem baixa e grades de metal; também não tinha muitas árvores; a noite estava límpida, no fundo prédios altos obstruíam parte da visão da lua, então olhei com atenção pro céu e me dei conta: a lua estava extremamente brilhante, cheia, e parecia uma lâmpada dessas led bem potente suspensa no céu; ela estava enorme, e havia um halo lunar, apesar do lugar não ser gelado e não ter neve nem nada do tipo. Eu andei um pouco e vi duas escadas enormes lado a lado, as duas armadas como se estivessem fincadas profundamente no chão; uma tinha os degraus a pouca distância um do outro, como uma escada normal, enquanto que a outra, cada degrau equivalia a uns 15 ou 20 da outra; eu via parcialmente a lua e seu halo, como uma lanterna gigantesca flutuando no meio do manto escuro celeste, com um prédio alto me impedindo de vê-la inteira; subi a escada "normal", de degraus curtos, pra tentar ver, cheguei quase até o topo então senti algo, uma sensação estranha no tórax, um aperto, e olhei para baixo: duas sombras negras, tão escuras quanto o próprio escuro se aproximaram das escadas, pareciam dois ursos, um com quase o dobro do tamanho do outro; eu pensei "se for um urso, ele vai subir"; então o maior, ainda sem que eu tivesse tido tempo pra poder distingüir de verdade se era mesmo um urso ou não, extremamente rápido saltou degrau a degrau da escadaria ao meu lado, aquela dos degraus muito espaçados. De salto em salto, ele chegou quase até o topo - as escadas deveriam ter algo como uns 30, talvez 40 metros de altura; eu desci e saí correndo o mais veloz que pude, contornando o parque até a saída. Não me recordo das partes seguintes do sonho, mas lembro de ter reencontrado algumas das pessoas que vi no meu trabalho numa sala num momento posterior.



*******



Animais





   Acho que todos se comparam com animais às vezes, mesmo que no fundo boa parte das comparações não façam sentido algum, exceto para a personagem que a pessoa cria de si mesma e fantasia. Águia, lobo, leão, são os animais que mais ouço as pessoas usarem para se referir a si - eu acho engraçado que todos ou quase, quando não o são animais domésticos, são de rapinagem, ou quando não o são, as pessoas usam um atributo "ofensivo": "forte como um boi"; eu lembro de quando tinha 10 anos, e me pensar como uma águia, e na igreja, poucos anos mais tarde, um dos sermões o pastor ter usado essa figura enquanto olhava para mim. Talvez ele soubesse que minha mãe desejava que eu fosse pastor, e me julgando similar a ele, me comparou a uma águia, porque ele também se via assim - mas é apenas uma hipótese: eu nunca terei essa resposta. Após várias e várias crises, passei a me julgar algo marítimo: um náutilo, polvo - algo com tentáculos e que fica submerso boa parte do tempo. Minha ex, ainda não procurei nas conversas de poucos anos atrás, mas na minha memória, há alguma menção a uma ave. Ela me mandou, no começo, um vídeo explicando algo sobre lagostas, com um senhor bem velhinho, provavelmente biólogo, abrindo a thumb com "a lagosta é um animal mole" no enunciado do vídeo. "Me lembrou você", escreveu para mim. No jogo cigano, para ela eu fui a serpente - na época achei que era algo bom, pois pelo pouco que conheço em ocultismo, a serpente era sabedoria, cura, mistérios, regeneração; não sabia que no baralho cigano ela era o símbolo da traição e perigo; por um breve momento, ao comentar o tema comigo, achei que estava em sua vida pra regenerar e transformar coisas, não envenenar mais. Isso me entristeceu. E foi da boca dela que veio no mesmo ano, a comparação com um urso - até então, nunca havia considerado isso; fosse pela hibernação, fosse pelo calor, fosse pelo apego a coisas terrenas, até que fazia sentido. Toda figura muito corpulenta, ou é algo protetivo, vezes acolhedor, ou é algo monstruoso - crianças e mulheres dormem com ursos pois em algum lugar sentem esses aspectos, a vibração desse tipo de símbolo. Talvez ela, especialmente no começo de nosso enlace, sentisse em mim o calor e acolhimento que um urso fornece, embora eu nunca tivesse me disposto de verdade, de vontade soberana e consciente, a dar segurança em nenhuma esfera para ela, fosse afetiva, fosse financeira. Sempre fui o cara do "se", do "eu acho...", de palavras que por detrás das aparências, eram moles, sem rigidez ou disciplina ou comprometimento para que elas se cumprissem. Eu era um urso hibernando, ou algo submerso, talvez os dois, acomodado no fundo de minha toca, me alimentando de sonhos paralisados, enquanto o inverno estava acontecendo. Quando acordei, ela já não 'stava mais aqui. 

Meu coração é uma toca vazia agora.






Ilustração de Anne Louise Avery (bear)


[04/Set/'022]

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