Dreamweaver // Reflexões
Sonhei em 19/04/2004, 16 anos:
I
Saía correndo; estava com correntes nos tornozelos, e vestido de preto se não me engano. O caminho era sinuoso e certa hora, ia descer uma escadaria, e essa escadaria era a igreja Adventista [N: que freqüentei entre fins 2003 até 2005 em algum momento] da Drª..., mas não do jeito como ela é. O portão era preto e piso vermelho, em mosaicos; desci os primeiros três degraus e no primeiro piso, estavam as mulheres da igreja de pé, com olhos fechados e orando. Estavam de costas para a igreja que ficava atrás delas. Estavam numa formação quase militar e, enquanto eu descia, notei a Drª... abrir ligeiramente os olhos e me olhar de "canto". Tive uma impressão ruim. Desci os outros degraus e estava no 2º piso. Os homens da igreja estavam lá da mesma forma que as mulheres da igreja. O filho da médica me olhou da mesma forma que ela. Desci as escadarias restantes e saí para outro portão igual ao de entrada, e fui embora, correndo ainda.
II
Uma repórter falava na TV a respeito da alta do petróleo [N: gasolina pra ser preciso], que chegava a R$02-R$03 o litro. E isso tinha alguma relação com a contratação de mais uns mil repórteres que iriam tratar do caso e investigar, se não me engano. De alguma maneira estava contratado para investigar também, e estava caminhando à noite por umas ruas escuras e ia parar na rua da B. [N: amiga, posteriormente paixonite, e passado isso, amiga novamente], parando no posto de gasolina próximo a casa dela.
III
De repente parei em casa. Era noite, e estava na casa onde moro hoje [Vila Ré, Zona Leste, na época]. Minha mãe era a esposa que traía o marido da série "A Sete Palmos" [Ruth Fisher]; meu pai não me lembro o rosto, mas não era o meu pai "real". Eu subia as escadas e entrava na "casinha" onde ficam os relógios de energia. Meu "pai" (onírico) estava lá com uma lanterna na mão, de costas para mim, aí eu pegava uma faca (comprida como meu antebraço) e apunhalei ele com um golpe, atravessando ele até a ponta sair no peitoral dizendo: "que eu sofra cinco vezes o que você sofreu"; aí eu descia e eu ou minha "mãe" estávamos preparando um porco para o jantar.
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Meu coração vive cheio de dor e tristeza, mas para ser o mais curto e direto ao assunto quanto o possível, quando páro para mentalmente repassar seu advento e a época dele, evento a evento, ao fazer um esforço enorme e por meus sentimentos de lado, chego a constatação (a mesma que você me deu pouco mais de um ano e meio depois de nosso começo, embora naquela ocasião, acredito que você estava errada sobre alguns pontos importantes, mas já não tinha reserva de afeto para que esperasse mais, e a máscara de minha hipocrisia a deixou desconectada de empatia por mim), que eu não 'stava pronto.
Quando numa noite juntos, você pôs Katatonia e P.O.D. pra mim, no quiosque no qual estávamos conversando, você me perguntou "Lucas, por quê não estamos 'namorando?' " - na verdade, não foi essa a frase, e eu ainda a ouço toda vez que passo em frente o mesmo quiosque. Sua frase foi muito mais sensível e verdadeira, frágil até, por isso a oculto, mas eu em algum lugar fiquei tocado por ela, mas não consegui responder a altura, eu não era sincero como minha face dissimulada travestia - eu acho que de tanto mentir sobre isso, acabei entendendo como funciona ao menos - mas sua pergunta, sua voz, eu ouço toda vez que passo por lá. Toda vez sem exceção. Lembro como estava vestida, lembro dos acontecimentos, de pra onde fomos em seguida, para onde queríamos ter ido, o que comemos, o horário que saímos mais-ou-menos. Só não lembro do antes, de onde eu estava e como e onde nos encontramos naquela noite, embora eu deduza. Só de relembrar, eu perco a fome. Eu gostaria de reescrever aquela noite, foi um dos dias cruciais.
... Em algum lugar com o qual eu não entrava em contato fazia tempo, eu entendia o seguinte: você era o melhor acontecimento de minha história recente, e eu não precisava pensar muito pra concluir isso; manifestava qualidades que quando eu pensava desde adolescente numa companheira, você as tinha; sua beleza não caía ao solo com água e sabão, ela era você, mas necessitava de olhos especiais para tanto, vide você, na época ao menos, ser uma mulher de trejeitos discretos; ao mesmo tempo, eu sabia nesse mesmo lugar, que devido o modo como minha mente estava lidando com a realidade e comigo mesmo, não teria como sustentar uma relação, pois eu era imaturo, eu não refletia nas conseqüências de minhas ações, até porquê, e não passando pano pra mim, mas acredito que isso ajude a entender, eu sou fruto de minha história, o que eu sou hoje, é um reflexo dos meus hábitos de três a cinco anos pregressos, e pensando nisso, eu não possuía referências sérias sobre vida afetiva, ou como cuidar de alguém, ou moralidade, nada disso. Quando eu falava que eu era uma pessoa "flexível", hoje, me ouvindo falar isso, essa palavra queria dizer "imaturo", "difuso". Mas você e eu não tínhamos o dicionário um do outro, não falávamos exatamente o mesmo idioma, apesar de você ter ido fundo em meu espírito; nem eu tinha o meu léxico em uso para auto-consulta na época; eu não ligava pra mim. E por extensão, pra minha vida, emprego... e você; apesar de várias vezes por a "mão na consciência", e pensar "puxa, essa mina é muito firmeza". Eu queria ter sido melhor, mas não conseguia.
... Algo em mim apostou que daria pra dar certo, mas vamos combinar que não sou um cara experiente, né? Foi necessário eu ser dissimulado: enquanto uma parte era o que era, com seu comportamento vergonhoso em redes sociais, a outra ia "cozinhando". Lendo a mim, a hipótese que me faz mais sentido é que não queria te perder, mas também não tinha maturidade, então fui tocando as coisas até que a maturidade acontecesse. Como constatamos, não deu tempo, infelizmente.
Os poréns: maturidade é um trajeto e complexo, não um evento como um nascimento; é algo que tem que ser "pago" - e ora ora, foi pago pelo visto, embora eu esteja muito longe de ser o melhor que posso ser. Eu fui egoísta, pois não queria te soltar, mas também não queria deixar de ter a sensação de que eu era um cara com "jogo", e algum "poder" sobre o sexo oposto - sensação que nunca tinha tido na vida e podemos ver que me iludi e chafurdei nela, como um porco na lama, enquanto você precisava de abrigo para seu coração. ... O maior poder que se pode ter, é estar ao lado de alguém como você, alguém disposto a exercer companheirismo e amor, porém, na época eu não via ou entendia. Eu não exatamente me arrependo disso, da parte de te querer - não porque você era um apoio: olha, posso ser muita coisa, mas pra mim você não é sua estabilidade. Se você fosse inconstante em sua vida material assim como eu, meu apreço e sofrimento seriam os mesmos, talvez mais intensos até. Não me arrependo de ter desejado permanecer com você, embora essa não era a decisão mais sábia na época.
Eu queria conseguir me perdoar, mas você tocou em alguns cantos que eu não esperava, em lugares que eu havia esquecido que existiam, tanto que ainda agora procuro onde exatamente as coisas foram mexidas, ou seja, meu reconhecimento do que aconteceu, pra que eu enterre e entenda as coisas; junto com sua partida, no pior janeiro de minha vida, parte de minha sanidade foi junto com seus passos, agarrada como um fio estreito e mágico aos seus pés que tantas vezes eu toquei. Meu afeto e processo curativo está comprometido com um tipo de saudade atroz que você deixou. É como um corvo comendo meu fígado. Se eu ficar só com a saudade, nunca deixarei de ser um menino. Se eu ficar só com o entendimento, eu me tornarei recluso: eu sinto demais as coisas, mas o foda é que isso acontece fora do tempo de vida com as coisas, ao menos isso é um padrão nas relações que tive. Caso siga esse caminho, sabendo de meu "delay", mesmo que minhas emoções fiquem mexidas, não irei ceder a vida. Estarei congelado. O sonho que tive num dia de abril, 18 anos atrás, por esse viés, se concretizaria, e só passaria dele quando cumprisse sua cláusula de ter sofrido cinco vezes mais que meu pai. Quando isso terminar, se terminar, talvez um de nós nem esteja nessa Terra mais - eu ficaria com você velhinha, mas é um devaneio que além de pouco rentável (alguém após certa idade já não está mais "transformado", é alguém que é o que é; a experiência de presenciar a mudança natural que ocorre numa pessoa dentro de certa faixa etária, é algo que me interessa muito, me atrai, e não gostaria de perder isso de você, apesar de mesmo longe, sentir que você parece estar numa freqüência diferente, mais densa me parece. Ou apenas 'stou enlouquecendo mesmo; ando me perguntando isso ultimamente. Enfim: quanto mais velho, menos possibilidade de presenciar isso, essa transformação), soa como uma fantasia de filme, como um "E Se Fosse Verdade".
Mais uma vez, como foi naquela época em que nos conhecemos, estes dois pontos estão em certa tensão - mas ao menos, ando num equilíbrio estranho e frágil entre essas duas leituras. Ao menos eu sei o que 'stou sentindo agora e o porquê minha obsessão por você.
P.S: feliz dia do baterista :)


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