Esse Mundo está...

   Eu 'stou a olhar a Sol - "Sol, você está sempre aqui, e eu sou o seu servo", eu me acho dono de meu próprio Destino, pois eu acho que tenho um tal de "livre-arbítrio"; pois bem: o Sol, que é maior que eu, que permaneceu e permanecerá após minha ida dessa Terra, permanecerá, com toda certeza, e eu, porque ACHO que tenho um livre-arbítrio, me acho maior que o Sol, porque ACHO que sou eu que escrevo minha história, porque creio adorar um homem igual eu com pregos estacados nas mãos - não é um tanto ridículo e prepotente isso? Talvez a porra do meu Destino já esteja traçado, por uma relação simples de causa e efeito, e escrito, e eu me acho dono dele, de meu Destino, por qualquer porra de motivo; veja: eu lembro de quando estava esmagado de angústia, querendo que algo me mutilasse ou me desse uma morte miserável, estava caminhando no centro do bairro da Penha, com menos dívidas do que tenho hoje, fugindo de minha tristeza, tentando aprender um idioma novo, isso em 2013, aos 25 anos, e cego, anos depois, pela mesma Penha, encontro algo muito relativo a essa tristeza, algo que quis me modificar: pensava num nome: "Tomas" - Deus do Céu, será que existe? Que merda é essa Deus? Como pude ser tão cego?! Em "A Insustentável Leveza do Ser", um dos livros mais importantes de minha vida, o protagonista se chama "Thomas"; em "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto", um dos protagonistas, dos mais importantes, aquele cuja morte, tal qual Cristo, é crucial, chama-se "Thomas". No momento no qual ouvi esse som, deveria ter entendido - será que era um código? Uma indicação de que achei o Caminho?; mas não notei, e 'stou perdendo partes de minha sanidade como conseqüência. Eu enlouqueci, ao menos parcialmente, sinto isso.

   Olho pro teto, casa vazia, outono está chegando, e o ambiente geral é silencioso por aqui. Eu ouço um zunido de fundo, isso é normal? Meu coração a bater, lento como seu invólucro aqui; se fossem uns poucos anos atrás, a bisnaga de hidradante a minha frente, teria uma utilidade que não me fazer retornar para um momento que ainda não consigo reescrever.

   ... Inconseqüente, imaturo, "não-Homem". Eu penso penso e penso, que deveria estar morto, que as coisas mudaram, e com efeito mudaram, mas eu me tornei obcecado. Eu não era assim. É claro que eu tinha meus problemas, tristeza, vazio, mas nunca fiquei tanto tempo nessa situação, me matando psicologicamente, dia após dia. Eu já fiquei extremamente enlutado e triste, mas nunca por tanto tempo. E sinto como se a broca que perfura meu peito apenas amplia em diâmetro, a cada mudança de estação. O vazio até parece menor, pois ando me habituando, dentro do possível, a ele.

   ... eu entendi que morri: lágrimas não voltam pra dentro dos olhos; por mais que uma situação passada me comova ou signifique algo pra mim, não é possível voltar no passado e refazer. Por mais que me arrependa ou tenha sido um completo cretino. Um dos motivos d'eu escrever tanto, é um certo desespero, uma tentativa que algo dentro de mim faz, de reescrever. Talvez, esse algo pense que, se eu escrever bastante, as palavras se manifestem, e meu Destino seja reescrito. Mas eu não sou demiurgo. As coisas estão péssimas, e eu, morto. Numa lenda chinesa, a esposa morta que volta para a vida do marido, ainda que por compaixão a ele, acaba por ser confinada em seu caixão à força. É como se pouco a pouco, os espinhos do Destino que furam meus pés e cabeça enquanto ando, 'stivessem a me empurrar para meu caixão, enquanto mãos, conhecidas ou não, me empurram nessa direção. Bom, se eu me desejo morto às vezes, imagina algumas pessoas... não as culpo: como disse, me desejo nesse status de quando em quando.

   ... eu não sei o que houve. Eu não entendo. Eu já passei por lutos muito pesados, mas esse é diferente. Eu não consigo "deixar pra lá" - verdade que não quero também pra ajudar, mas nem o período natural das coisas, tem conseguido aplacar esse vazio; isso mexeu com algo que eu não tenho conseguido dar conta direito. Uma peça muito estrutural rachou, ou pior: esfacelou-se. Me tornei obcecado. Tipo o cara de "O Manuscrito de um Louco" de Dickens (a coisa que li dele que mais gostei). Fora do trabalho, não quero ver rostos humanos: tinha que lavar roupa, mas não quero ver as pessoas; fazem dez dias que não lavo roupa. Eu vou sair dessa, mas acho que dessa vez, não foi só um coração partido ou uma questão de causa e efeito, visto eu mais uma vez, ter sido um namorado de merda. Dessa vez, parece que eu enlouqueci um pouco. Sinto como se uma fração, um percentual razoável de minha sanidade tivesse ido embora, junto com Ela. Claro, ser humano dahora, cheia de qualidades e tals, etc, etc, mas caceta... Como isso foi acontecer? Eu nasci só, morrerei só, logo, as coisas estão muito "tortas", isso foi e está desproporcional, eu sei disso. Se eu tivesse conseguido agir como uma pessoa "normal", talvez eu 'staria vivendo os melhores dias de minha vida agora, e sem acusações na Justiça, fragilidade pós-álcool e essa merda toda. Falhas, ameaças. Falarem comigo, e eu entender como um sinal de paz, algo que apenas era mais uma arma pra me ferir. Eu 'stou cansado. Mas não consigo atuar direito sobre isso. Claro que queria a droga de uma conversa, mas ninguém é obrigado a isso, eu entendo isso. E bom, as coisas mudaram: outra vida, outra vibe; eu agora, não tenho nada a ver e nada a oferecer; a vida adulta, queira ou não, é troca e interesse, e as coisas são como são, e eu fui o que fui dentro de um contexto, que eu compreendo que não era um contexto amplo; na verdade foi uma ocasião especial e de traços fugazes, e ao querer, mesmo inconsciente, que as coisas restabeleçam-se, 'stou a desejar um contexto muito específico, que nem era o melhor pra outra parte. Eu entendo isso. E outra: eu mesmo me apequeno me pondo intransigente ante isso, e as coisas pioram, mesmo eu querendo que melhorem, ou no mínimo, estagnem. ... eu sei de tudo isso, mas não consigo escapar de mim mesmo e da história. Perder sanidade não é só ouvir, ver coisas ou alucinar: tem a ver com a capacidade de reagir e tratar com a Realidade também. Eu 'stou ficando enrijecido, pouco móvel, pétreo, assim como alguns corações para comigo. Minha mobilidade pra vida, ante a vida, encurtou, se apequenou. Nesse ponto, alguém questiona que eu perdi um pouco disso também? Foi embora junto essa parcela, naquele maldito janeiro. Perdi um pouco da capacidade de ser amigo da Realidade, ela, a cada dia toma mais e mais contornos de uma ameaça constante. A qualquer momento, tudo pode ruir, e eu penso nisso todo dia. Obcecado.

... talvez se eu provocar mais as coisas, me matem, e aí eu descanso d'uma vez, já que suicídio é visto por alguns como "covardia" e/ou "egoísmo". Não que ligue tanto também: posso ter a "reputação", se é que tenho, morta também, aí seria uma morte mais completa, de corpo, sociedade e alma. Me soa tentador. "Por quê não?". Enfim: parece que depois de tanto ignorar e achar um saco ver meu pai chorando e reclamando anos a fio, herdei o tormento dele. Bem-feito. Acho que era algo parecido o tormento de papai, e isso não pára. Ele também ficou obcecado, e fez uma festa de aniversário com balões e decoração pra minha mãe morta. Fazem vinte anos isso, o sol sob gêmeos. Na época, eu com 15 anos, achei a atitude dele ridícula, senti vergonha de meu pai. Bom, meu pai não era um homem sagaz, mas se o fosse e visse eu hoje, perguntaria: "então Lucas, quem é ridículo agora?". ... é pai... tenho pago por meus erros com você também. Me perdoe. Pareço relativamente estável pois sou calmo em temperamento, mas é um peso enorme nas costas, na cabeça, e andando num chão de pedras pontiagudas. Minha porra de visão fica borrada de lágrimas. É uma maldição. Claro, às vezes isso cessa e me vêm outros estados: monotonia, saudade, indiferença, espera, expectativa. Até esperança. Imagino e lembro de coisas boas. Parece que morri, é uma sensação bem estranha - Me vêm estados bons também. Mas quando o vazio bate, é diferente, pois além de mental, ele se manifesta fisicamente. ... será que alguma das pessoas daquela fase que considero "de ouro", sabe ou faz idéia do que é esse tipo de estado? ... eu não acho ruim que ninguém busque o que é melhor pra si. De verdade. Mas me soa no mínimo perverso querer associar minha condição à alguma falta de "masculidade". Não se sabe do futuro, quem hoje me desafia, pode passar por Destino similar: eu fiquei mais velho, e hoje, não só entendo meu pai, como passo por mazelas similares as dele, ao passo que quando jovem, zombava dele. Às vezes a vida aparece com essas ironias, logo, acredito ser melhor ter uma postura humilde ante a miséria dos outros. Acho que nunca me "alimentei" da miséria de outros, mesmo de quem não gostava. Bom, acredito ser um homem simples no final das contas. Mas voltando, também pode ser que não aconteça porra nenhuma, e essa justiça divina que evoco é só lixo retórico. Se por um lado isso é um tormento, por outro, quanto antes passar por esse tipo de tortura, melhor - duvido que na casa dos 70 ou 80 anos, mesmo 60 anos, se passar por algo assim, alguém agüente quase três anos, como é meu caso. Isso não tem nada a ver com masculinidade, eu sou de carne e pensamentos, logo, 'stou suscetível a isso, tanto quanto qualquer um - no meu contexto foi uma mistura de incompetência minha (que esbanjei. Fui um perfeito idiota em vários e vários contextos e momentos), e má sorte, de minha psiquê ter reagido tão mal. Eu achei que era mais forte, que levaria melhor isso, mas pelo visto, não sou. Apesar disso, pode acontecer com qualquer um. Qualquer um, sob certas circunstâncias, pode ruir. Eu vou sair dessa; mas uma parte de minha sanidade sinto que foi embora pra sempre, junto com alguém querido. De boas. Ninguém tem culpa ou ingerência sobre isso, apenas "é". As coisas são o que são. Está no passado, mas ainda pago o preço por isso, e pior: os juros se acumulam, e corro o risco de pagar ainda mais caro. Por quê não me matam logo? Que saco isso ...Minha cabeça ferve e dói de leve entre os dois hemisférios enquanto escrevo, mas naquele dia... qual foi a peça que saiu do lugar que derrubou tanta coisa? ... Mas eu vou sair dessa; eu ainda nem tenho noção geral de tudo que terei que reestruturar. Verdade: a responsabilidade geral por esse quadro, é minha; eu fui descuidado, displicente, irresponsável, inconseqüente. Mas me parece que 'stou pagando caro demais e caro por coisas que nem 'stou fazendo. Qual livre-arbítrio me salva disso? Eu sou livre para agir, mas não livre de meu desejar, nem das conseqüências. Anos atrás, disseram que eu morreria só, que teria desilusões severas. Talvez pra tentar escapar disso, me tornei um cachorro de merda. Eu queria ter uma arma agora. Mas parece a porra de meu Destino. Mas darei um jeito. Eu vou sair dessa. Saio mutilado ou morto da forma que eu achar melhor, mas mudarei um pouco isso. Eu vou sair dessa.

Comentários

Postagens mais visitadas