VII/XXVI
Viver sem propósito, apenas pensando em como capturar para si a coisa mais bela que crê existir, e fazer disso seu propósito - como um ato de fé, de busca em busca, passo e passo por vez, singrando solo e pensamentos, torcendo para que essa pretensa coisa, exista de verdade e não só na imaginação. Quando não se tem um talento bem definido, é difícil passar os dias: pensa-se na carreira de pai e mãe, e em como poderia ser uma continuidade desses, mas com pouco talento, como perseguir esse propósito? Mamãe construía pontes entre pessoas, e raras eram as tempestades capazes de fazê-las ruir. Não tenho tanto talento, sou um engenheiro ruim, e portanto, poucos lugares aparentes e óbvios sobraram, além de cuidar de uma vida enferma e um tanto vazia. Meu nome, um nome, foi dado considerando algo muito elevado como melhor escolha - se fosse para dar nome a uma filha ou filho, e fosse chamar da coisa mais bela que conhece, como chamaria?
... os dias sem significado, permeados por certa vontade de continuidade, mas ocos em propósito, tornaram-me andarilho de certa espécie; andarilho para escoar a própria culpa, regando a terra que percorro após minha passagem, com revolta e sangue e lamento e indulgência, para que uma abundância abençoe os subseqüentes, uma floração nutritiva na primavera. Sem propósito, apenas fluir, como o arco-íris ou o rio ou o deserto, persecutório, a um só tempo com e sem fé, tentando tocar o tesouro que se oculta no final de qualquer um desses, tentando tatear e curar, com toda a boa-ganância que pode secar ferimentos e pés descalços.
A chuva, sinto-a, ela chega, o rio da vida transborda, violento, quase a estremecer todas as pontes que tentei construir. Ao que me parece, desisti dessa vida de construtor, pouco talento há para tanto. Fluir acontece, mas não apetece, e a cada milha percorrida, a fome assola, e nenhuma chuva que tentar beber, amaina essa. Poderia esquecer o passado, minhas mãos inábeis, e enterrar toda a culpa - assentar-se numa casa em meio ao gelo ou campo, e lá continuar o resto dos dias em calmo exílio; ou viver um propósito, e dar uma pausa, esquecer, e olhar a chuva, a serração ou fenômenos de qualquer tipo, antes de levantar e buscar outro Caminho, um a cada vez. Mas não pertenço a essa natureza: a culpa e a memória cá estão, parece que sou construído a partir disso. Mas de naco em naco, blocos grosseiros e monólitos, ponho um a seguir d'outro aos poucos, daqui até a outra margem que tenho na imaginação atingir. Talvez no final de meus dias, possa atravessar essa ponte com sucesso, uma ponte quase Indestrutível, e correr sobre ela vindo do escape da colheita, rumo ao arco-íris.
Para minha filha que ainda não nasceu, para a ponte que tento erigir, caminho em busca de um nome. Qual é o nome da coisa mais bela que conheço?
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