V/XXVI
(Unir-se à vida)
Há todo tipo de Vida no Cosmos, caso sua noção sobre isso seja um tanto flexível - talvez planetas sejam algo vivo, ou galáxias: o macro como espelho do micro, os planetas podem ser células, as galáxias órgãos; mas aqui, nesse pequeno ponto azul, uma noção de vida pulsa e arrasta. Não é desejo particular de quase ninguém, ser sacerdote da vida, após ter ciência de todos os custos que isso cobra, debruçar-se sobre sua horda de noções, e tentar sair são disso; ao tentar apreendê-la, como um gato que você observa comendo grama, você sente-se compelido a fazer parte dela, fundir-se, perder-se. Você é sua própria Vida, ou é algo à parte? Como uma tarefa, então estais a "cumprir a vida", tal qual uma obrigação ou dever. Bom, alguns escolhem afogar-se nela, como oferenda impensada, uma entrega inconseqüente, como uma criança que ao pular da sacada, crê que seu pai a salvará apenas porquê é seu pai e esse crê que voa. Ela se desloca e se move, nascida do Rio Ameles, até encerrar-se no Submundo e morder a própria cauda. Ela 'stava aqui antes que eu tivesse qualquer ciência sobre a Terra, e continuará até que nem mesmo o pó de meus ossos resista. Jogar-se nesse rio, deixando-se levar, até que ele desagüe nalgum oceano desconhecido, dissolvendo a si mesmo e nutrindo peixes.
... levanta, cresce, canta, come; oferecer-se, imolar-se, naufragar; uma escuridão de mistérios cortar as vértebras e lhe puxa os pulmões para fora, delicado como veludo, brutal como um deus vetusto. Siga a correnteza até que essa extermine, é assim que deve pensar (?).
... essa vida, como já disse, se iniciou muito antes de mim. Assumindo para mim o Desejo de ser Testemunha do Eschaton, seria uma honra presenciar e fazer parte disso; no entanto sei que após esse que vos escreve, muitos peixes ainda passarão por essa água. Se fundir com a vida, ao desmanchar, a morte causa nutrição para aqueles que virão depois. Alguns permanecem após ela, ou presenciam por muito mais: Utnapistim e sua esposa; Mathusalem, dentr'outros. Que honra ver essa em toda sua incompreensível compleição, nutrir as consciências e inconsciências, desertos de mentes humanas, caules de juncos, papiros, escrituras. Não sou minha própria vida, mas sou a noção que evola dela até a superfície da incompreensão. O bom da água é que ela esconde as lágrimas e torna humilde aquele que respira. Não sou a própria vida, mas respeito sua fruição; antes saliva, secreções, por fim sangue e decomposição, nada limpo, só Sagrado: Oferenda e Tributo.
...Silêncio!: ouço calmo o som das águas debatendo-se contra as orlas humildes da Sabedoria. O corpo da vida se assenta e esmaga os dias; antes que a morte faça visita, é possível ver como as coisas são boas antes d'extinção.
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