VI/XXVI
Tanto tempo, tanto tempo... é tanto, que se parar para pensar de forma acurada, as pernas fraquejam e tremem com tanto peso. Nunca me perguntei "qual é o peso do tempo?"; - eu lembro d'uma vez, por volta de meia-década atrás, 'stava deitado na cama de minha Companheira, minha mão sobre as costelas dela, e perguntei algo como "se (Ela) queria viver muito"; eu não lembro da resposta: caço e caço dentro das lembranças, e não ouço sua voz dizendo algo mais do que um som incompreensível. A impressão que tenho é que a resposta dela foi um tipo de "não", mas sem certeza nenhuma. Nossas conversas estão cá comigo, desd'orto 'té ocaso; nunca as apaguei, pois considerava algo relevante, talvez até indestrutível nalgum grau, creio eu; (sou "Adepto da Memória"); - esses dias toquei novamente uma de suas mensagens de voz, afim de ter, de repente quem sabe, uma pista que levasse minha memória par'esse momento, mas sem sucesso. Viver por tempo demais, implica pensar e se demorar também sobre as coisas, mesmo que não queira, mesmo que prefira fugir delas; se você pensa demais, quanto mais pensa, mais densas ficam as coisas, essa é a física da reflexão; o pensamento atrai detritos de todo tipo de Realidade, como um imã poderoso, ganha massa - boa sorte ao tentar suster tanto peso.
Flores: nunca a dei flores, e tive algum tempo para tanto. Ao menos, não me recordo dess'evento - vai que o fiz, e minha própria memória está a me trair e zombar - seria talvez adequado ao tipo d'aberração que 'stou a tornar-me. Enfim. Flores são uma forma curta de vida, nasce-se, logo envelhece e morre de fórma rápida - se o tempo nosso fosse assim, sem fases tão longas e crescimento tão lento, imagine: tudo seria tão intenso, que me pergunto, como seria existir dessa fórma?; meu coração 'staria tão cheio, morte e vida tão próximas que nem conseguiria pensar, tudo seria um milagre e tudo seria fabuloso - somente pesadelos e monstros vivem por tempo demais, às vezes, quase que pra sempre.
... maioria das pessoas que conheço, gostariam de ter uma vida de flor: facilmente resumível, intensa e sem pensamentos ou peso; na média, pra quem chega lá da fórma tradicional, "não-floral", os anos mais felizes nossos, estão entre os 70 e 80 anos, pelo que já li acerca do tema. É tempo demais até digerir as noções, entender a existência, e fazer as pazes com ela. Sustentar o peso e achar o equilíbrio, sem estilhaçar, sem que o peso lhe esmague em lágrimas de vidro. ...Tempo demais: muitos de nós nem chegam a isso, e morrem entre as chamas e golpes d'espada e tiros, sem uma trégua absoluta ou duradoura. Uma existência de flor, às margens do riacho da inconsciência. Talvez, atravessando mares e mais mares de dias até encontrar uma outra terra firme que não essa, uma tentativa de, haja uma vida diferente e mais feliz, mas ao que parece, aqui tem o aspecto de ilha por demais afastada de qualquer lugar. Entre uma opção e outra, muitos de prontidão se colocariam a respirar o aroma de papoulas, a ter que dar braçadas rumo o desconhecido ou conhecimento assaz pesado bruto e dolorido. O peso da consciência dorme nos músculos fatigados e puxa para o fundo d'oceano. Ou cozinhar vivo no calor da batalha, e torcer para que a trégua abençoada não se demore. Uma existência como de flor, certamente que a muitos apeteceria, simples, leve, importante. Conhecimento, implica em "taxas" por demais, um "imposto", sobre cada ação exercida, e golpes da Consciência como "agiota", a lhe oprimirem as costas. Peso demais, peso demais; e flor nenhuma carrega ou paga isso.
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