XII/XXVI

 



   Imagino que não tenha sido dos desafios mais fáceis pra você - nunca é algo lá muito fácil se ferir, mas, apesar minha inabilidade, fiz algo dentro do que pude, para que pudesse ficar bem. Pra mim também não era algo nenhum pouco fácil, acredite; como ficou claro, no começo, logo no princípio de sua estada, fazia muito tempo que não cuidava de nada, além de mim, e mal e mal, como póde ter notado. Não fazia muita questão. Coisas aparentemente ruins, você julgou, deveriam ser exterminadas - por quê eu permitia que elas ficassem, habitando a lagoa próxima a minha morada? Bom, algumas coisas apenas são o que são, algumas coisas apenas acontecem. Mesmo algo aparentemente maligno, num olhar um pouco mais corajoso, pode se mostrar apenas um certo tipo de ingenuidade ou falta de consciência - isso me dá o direito de exterminar coisas, sem entender a fundo do que se trata? Como talvez minha retórica denuncie, eu acredito que não.


   Eu vivia entre os meus anos atrás, mas é complicado: nesse ponto, temos semelhanças, você também era "nômade", sempre caminhando por diversas casas e lugares, tal qual eu. Eu vim das montanhas, lá tive família, mas não podia me assentar por tempo demais: se permanecesse tempo demais entre os meus, devido certa tendência de atrair espíritos, logo as coisas não ficariam legais, então fui para esse modo de vida quase impermanente, assentado sobre a própria companhia e o caminhar sem fim. Seu nomadismo, talvez tenha outra origem, mas você também lida com espíritos, mesmo sem total ciência disso.


   Vim para cá e me estabeleci, meus queridos sumiram e não tive rastro de para onde foram, então me exilei aqui, e passei a pesquisar, pois me pareceu que os rios, os fluxos, tinham algo a ver com isso. As manhãs eram gloriosas, uma luz tão intensa, que descia rumo ao âmago da vida; na seqüência, uma escuridão absurda, e essa devorava os olhos dos peixes. Todos os peixes se tornaram cegos de um dos olhos, de tanto se expor a esse fenômeno, e comigo não foi diferente. Uma pessoa comum não consegue se expor a esses extremos sem carregar seqüelas, e como póde verificar por mim, muita luz, muita escuridão, e meu aspecto se tornou alterado.


   Enfim, parei para pesquisar, sem me dar conta do que 'stava a haver comigo, e fui me expondo a esses extremos e a solitude. Me dei conta, um tanto tarde, é verdade, de que a escuridão também se alimentará de mim, mas tudo bem - tem coisas que hão de ser. Lamento por seu contato comigo - teve que fazer sacrifícios, isso lhe trouxe prejuízos. Eu sei disso. E não era algo que gostaria que houvesse acontecido, você não tem nada com minha história, e apenas fez-me companhia, pois queria um lar.


   A escuridão sucederá, e levará a mim. Quanto a você, conte com minha bênção e o pouco de conhecimento passado, para que tenha dias melhores e mais longevos que os meus.

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