XI/XXVI
Não póde sair
Não póde ficar
Como você se estabelece num mundo, se assenta entre os seus, se mesmo tendo aos olhos uma vista bela, optimista, basta tropeçar, para afundar a visão numa Realidade escura tanto quanto a noite, dura a ponto de lhe trincar os ossos das maçãs do rosto? Nunca deixei de achar que a Vida deveria ser algo mais fácil, e sempre encontrei-me em certa medida distraído por demais. Olhei para as pontas dos montes, apontando aos céus, e por um momento, é como se por debaixo da tintura aparente, os cumes 'stivessem esburacados, como que por bombas; pisca-se e essas Verdades somem, logo as falsas impressões se impõe, inabaláveis - ou apenas uma flutuação no equilíbrio do que é Vivo? Uma vereda inverídica?
Caminha, caminha, caminha... não porque seja necessariamente aquilo que mais apraz, mas sim porquê se pára, espíritos começam a se aninhar. Isso atrapalhou muito a convivência c'outros: seria óptimo "ficar", sossegar, tornar-se sedentário, engordar nas refeições dominicais, numa mesa com pessoas e risadas, com iguais, sem o fardo de ser peculiar; pensa, mas logo, sua presença é como farol par'espíritos que estão n'escuridão, e isso não póde ser, pois fere pessoas que não sabem ou se prepararam para tanto. Ninguém têm culpa, cada qual só quer viver seus dias, só estão como é a vida: ninguém quer morrer ou ter um Destino atroz. Espíritos, pessoas, etc, mas nem sempre isso é simples, visto que algo que venha a atrair, a usar a presença como lâmpada ante a escuridão, póde interferir e deixar marcas profundas na vida d'outrem. Então se caminha bastante, ao cansar pára, descansa, desfruta um pouco, e ao perceber-se presenças, levanta-se e volta a caminhar, se exilando novamente. Já pediram pra ficar, em momentos anteriores, mas isso não pôde ser: foi tentado, mas o custo é por demais elevado - vidas têm valor inestimável, por "menores" que sejam. Esse conhecimento teve um custo extremamente elevado. Custa uma vida, lembranças, afeto, alimento; é o preço de estabelecer-se. Vale?
Certa vez, desejaram que ficasse; também era desejável: bela, direta como aguilhão severo e afilado, macia e cálida no tratar como medula. Sacrificou um espírito majestoso, para que tomasse seu posto como habitante de montanha da mais elevada, avizinhado a Ela - esse era majestoso e forte como um deus javali; suas costas eram fortes como carpetes que sustentam hectares de colheitas, marfim de presas, forte como os troncos das mais poderosas árvores; não tive escolha a não ser guardar seu amor e assumir o lugar do espírito, ou coisas piores viriam a seguir. Mas com o passar do tempo, as presenças foram lhe tirando a vitalidade, e Ela foi-se debilitando. Não podia mais sair da montanha, 'stava alto demais e velho demais para abandonar aquele lugar - faz sentido dizer que me tornei, ao menos em termos, tão parte daquele ambiente quanto as rochas, um ambiente herdado dela, o lugar mais próximo à época para nosso travar de conhecimento. Lá fiquei até que Ela deixasse somente espíritos após sua partida. Passou muito tempo. Já velho, esse lugar precisa d'algo maior qu'eu, algo que possa ser uma fonte d'equilíbrio, não algo precário e errante, como sempre fôra.
Certa noite, invocando o maior dentre os espíritos conhecidos por mim, entendi que uma vida só se troca por outra vida: a do deus antigo, pela minha, e por sucessão, a minha, em troca desse ser mais digno. Não sobraria nada de mim: ess'espírito s'alimenta d'Existência, como condição para manter o equilíbrio das coisas - seria como se nunca houvesse existido: os breves amigos em abraços curtos e copos d'álcool, jamais se lembrariam de mim, ou sentiriam saudades ou lembrariam de como era minha voz, sorriso ou cabelos; se a alma dEla tivesse algum fragmento de mim, esse se tornaria vácuo, e uma sensação residual que não é reativa a lingüagem, logo, não se lembraria que não se lembra de mim. Minha casa desmancharia sem resíduos no tecido do Espaço, e enfim... é como se jamais tivesse existido. Achei justo. Sou apenas uma pessoa, não sou a própria Vida, nem Destino, apenas parte disso. Era ele um dragão serpente imenso, cobria um bom trecho dos céus; seu som vindo em minha direção, como um som de sino do maior carrilhão, grave, sisudo, solene, e lento. Demorou, semanas, mas uma hora veio. Um breve sorriso em direção a paisagens que nunca vi, mas que sempre 'stiveram em meu coração. O sangue da vida morta nos braços de minha parceira, contente porque eu ficaria - sem se dar conta qu'isso teria um preço, um preço de falhas e vidas e inépcia. Coração batendo devagar e rápido simultâneo, água n'olhos, e uma vida feliz não vivida, apenas pensada, sonhada, prometida, planejada - o dragão veio dos céus, e deixei d'existir. Desisti.Todos ficaram bem, e eu tive algo que não chega a ser paz, pois encontra-se em camadas ainda mais abissais, mais elementares. Nada. Me's'sonhos sangraram de minha extinção e foram como gotas caindo no Inconsciente Coletivo. É muito pouco, mas é o que consegui deixar enquanto testamento. Pouco. O espírito dragão agora se aninha, imperceptível e poderoso, forte e guardião, na montanha da qual um dia, fui eu seu protetor - fajuto, é verdade, cheio de pecados, mas ao mesmo tempo inocente, atrapalhado, com falhas e hipocrisia, sangue, honestidade e boa-vontade. Tudo está calm'agora.
... Esse foi um sonho não meu, sonhei algo alheio, para fazer as vezes d'escrivão: ele surgiu, se mostrou - brotou da própria nascente da Vida, seus galhos atingiram minha onírica; sei qu'eram despojos, espólios, caíram em meu breve sono, e os vivi em mim como uno, um farfalhar de folhas, 'stava sob e sobr'ess'árvore algures. Também sou tecido na tra(u)ma - por vezes fios estão tão cruzados e unidos, que confundem-se e não é possível separá-los.
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