XIIII/XXVI

 


   Não há vida que não queira permanecer, ficar, e mesmos os suicidas assim o são; não importa, podem ser fungos, musgos, humanos, insetos, germes dos mais diversos: todos apenas querem permanecer, ficar, a menos que algo aconteça e você tenha que ceder sua Vida, por algo maior.

... eu, sinceramente não sei por onde começo essa história...

   'stava a brincar próximo a floresta, e vi aquela garota - era muito novo, e nada na aparência dela dizia que era peculiar - ia usar a palavra "excêntrica", mas essa quase sempre é usada no pejorativo, e uma vez, tive uma pessoa que me chamou de "peculiar", e de uma forma muito querida - eu nunca mais esqueci; enfim: ela nunca saía do perímetro da floresta; alguns pais na aldeia, diziam que ela era "coisa ruim", outros ensinavam seus filhos a não brincar com ela; na aldeia, gostava muito de minha irmã, era a pessoa mais importante pra mim lá. Fui brincar com a estranha, e me deu sede; ela sempre carregava um cantil feito de bambu com ela, e me ofereceu daquela água. Depois daquele dia, tudo se tornou diferente, e assim como ela, eu já não conseguia sair da floresta. Era apenas uma criança, mas a vida simples: plantar, arar, colher, carpir; quando 'stava chegando o outono, me deitava no carpete de folhas mortas que as árvores teciam pra mim; olhava para o céu, contente, aquela luz bonita do céu de início de outono, e uma chuva de folhas passava diante meus olhos, como um filme curta-metragem; quando chegava em casa, ficava ainda mais contente, e ela, sempre solícita e doce me recebia; era fechada um tanto, tal qual um relicário, e sempre usava cores discretas. Um dia minha filha 'stava para nascer e compreendi sua natureza, e do que mais-ou-menos se tratava; não era eu a mente mais brilhante do mundo, especialmente acerca de sentimentos; minha filha veio, e ela tinha todos os traços da mãe - até esse ponto, os aldeões nos ajudavam com mantimentos e comida, pois fiquei preso, e a floresta não deixava nem a mim nem a ela saírmos, como se um cordão umbilical invisível nos ligasse a essa; apesar de preso, tinha ela, e tinha minha filha. Sentia falta da aldeia e de minha irmã; por vezes eu erguia minha bebê em direção ao céu e a aldeia, e prometia que um dia levaria ela até lá.

   Passou-se algum tempo... um forasteiro apareceu e ficou interessado em nossa história; a sós, ele me disse que para que pudesse sair da floresta e retornar ao meu lugar de origem, ela teria que "cortar a ligação com a floresta", e pouco tempo após isso, eu também 'staria livre. No entanto, isso potencialmente custaria a vida dela. Ela ouviu a conversa. E viu minha expressão de alegria, antes que o estrangeiro dissesse qual seria "o preço" disso; de fato, tinha muita saudades de minha terra natal. 

   Ela foi até o núcleo, até a árvore mais sagrada; queria me libertar, e chorou tanto quanto uma vida na fogueira. Ela cortou seu elo. Ela me libertou, e com isso, pude sair. 

   Na aldeia, já não era bem quisto, o tempo transfigurou-me num pária, constatei. Apesar de meu amor por lá, passou-se tempo o suficiente para que eu me tornasse um estranho, esquisito e esquecido. Quando retornei, não demorou para que minha esposa e filha definhassem; sofreram muito, e não demorou para o calendário, mas cada dia era como algo sem fim. A dor muda as pessoas, e se essa passa de um certo ponto, a alma fica tão irreconhecível quanto pele derretida. Com toda essa dor, a identidade delas sendo desfigurada pouco a pouco pela ausência de nutrição, do elo que foi rompido, cada dia era uma eternidade. Elas prescindiam daquele elo, laço - foram ficando sem alimento, e secaram como algo deixado no deserto.

   Ninguém merece algo assim. Não foi uma morte digna ou justa.

   Eu procurei as pedras mais bonitas que pude achar, e numa clareira, ergui uma pequena lápide/pirâmide para cada uma. A casa desolada era apenas minha agora. O vazio era vasto, me deitava na cama, e essa parecia um vale; eu não tinha mais uma bebê para segurar no colo e ensinar coisas; não tinha mais uma esposa, seu sorriso, abraço, calor, seios. Eu chorei até perder a conta dos dias.

   ... mesmo sem querer ou inconsciente, ela me prendeu junto a ela - talvez o fez, porque queria companhia e gostou de mim. Ela queria permancer, ficar, viver. Há vezes nas quais as vidas se atrapalham e entrecruzam, como as nossas, mas, era isso: apenas prevalecer um pouco, dentro do possível, sobre a morte. Pessoas excepcionais, aberrações, não-ajustados, também precisam de sentimentos, e forneci isso a ela; não se trata de ser forte ou fraca, apenas "é". A vida precisa. E mesmo preso, tenho plena convicção de que era feliz.

   'stou deitado, é fim de tarde, ainda 'stá claro. A casinha, a floresta, faz silêncio, e apenas o farfalhar suave das copas ao fundo; ouço sons de choro de bebê vindo d'algum canto do interior da mata. Talvez minhas lágrimas tenham regado essa terra mística, e essa, trazido um milagre como seara.

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