XV/XXVI

 


   Fraqueza, segurança e coisas que existem, mas só alguns vêem - é certo que no inverno, no auge do frio, é nos lares que se encontram primaveras escondidas - no meio de todo o frio e melancolia, ao adentrar num lar, o aconchego se torna o mesmo da mais alta primavera; percorrem-se quilômetros em busca d'alimento, e uma vez obtido, à boa mesa, posta entre iguais, a ceia é feita, o calor afaga. Mas há as coisas invisíveis, que sempre tornam tudo mais instável.

... chamam-nas "conceitos", "idéias", "espíritos","histórias", "platonices", chame como quiser, chamarei-as "espíritos", pois é uma palavra que agrada-me mais; nem todos os enxergam - há quem possua olhos especiais, capazes de enxergar a não-luz, o invisível. A vida desses é atribulada, bênção e tormento: se permanecem por demais em qualquer canto, logo essas coisas empesteiam todo o recinto, e passam a fazer mal para as pessoas ao redor, sem que essas saibam. Quem porta esses olhos obscurecidos, também sofre, algumas vezes em medida menor, noutras maior, mas têm por sintoma uma existência de aspecto solitário. Os espíritos não o fazem de propósito: mesmo idéias, só querem permanecer vivas, colhem seu alimento dentre nós, nutrem ou nos drenam, e prosseguem. Nada quer ser esquecido, nem mesmo os pensamentos/espíritos. Dessa classe de pessoas, eles se alimentam e conseguem sua força.

   Coletava essas histórias, sem que soubesse qual era boa, qual não tão boa e em casa, no lar, faziam morada, pois sempre alguma era levada até lá. Não são amigas em Verdade de ninguém, são antes, estranhas vizinhas, mas é possível gostar e admirar-se delas contudo. Num inverno, essas coisas emitiam uma atração especial, como um tipo de perfume diferente, bem único; quem possui tal visão especial, se apercebe de toda paisagem: imagine caminhar em meio a neve, tudo calmo e silencioso ao redor, tudo se tornando breu, e então você se depara com uma clareira cheia de flores, animais, árvores, um iluminar solar nesse trecho contido, um contraste absurdo, como um óasis, mas para o frio; ao demorar-se, sentir o calor da imitação do Sol em sua pele, esses espíritos vão se alimentando de sua vitalidade, e acaba-se por dormir. Os espíritos põe a "vítima" a hibernar, logo após esse estágio, e isso póde demorar muito mais tempo do que se imagina. Na fronteira do sono com a consciência, tudo se faz claro, e pouco antes do cérebro "romper", entende-se o que se passa, no entanto desprovido de forças para reagir.

   De meu testemunho, caí nessa muitas vezes: as clareiras eram bonitas, e de certa forma, me alimentavam, antes que caísse num sono que me furtaria um bom tempo de minha vida, essa transformada num sono extenso e com raros sonhos. Hibernei por meses, depois anos. Houve quem cuidasse de mim enquanto dormia. Quando por fim despertava, já não podia permanecer: minha simples presença atraiu espíritos por demais. Voltei a caminhar, já não era inverno, esse havia passado. Gostei do lugar, mas não era pra ficar, ou significaria atrair problemas e não era esse o intento.

   Mas aprende-se a conviver com os espíritos; é muito difícil, lhe mutila parte da vida, mas aprende-se. Talvez numa caminhada de alto inverno, peça abrigo novamente numa das casas na qual foi-me permitido hibernar, mesmo que sem querer, e agradeça a estada e cuidado. Até lá sigo caminhando, sendo seguido por espíritos que somente olhos obscurecidos conseguem ver.

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