XVI/XXVI
Muito penso sobre memória - a alvura cegante das imagens impressas em um 2018 já desbotado, na trilha sonora Blut Aus Nord, Swallow the Sun; 2019, cinco anos atrás, 2012, doze anos atrás, 2008, dezesseis anos atrás, 2004, 1998, 1994, '93 e a pata "LanLan" nos meus braços, por aí vai, e tudo se mistura parcialmente, como feridas suturadas, pontos bem demarcados e ainda não retirados, afundados na carne dura da consciência, tudo claro como uma foto estourada, saca? A luz branca d'uma esperança amortecida. Bom, penso sobre. Nada me tira da cabeça a associação de que Funes, do conto de Borges, "Funes, o Memorioso", não seja pra fazer referência ao quanto seria funesto, ter uma memória perfeita e preponderante sobre as demais faculdades mentais, sem luzes claras demais para arrefecer os detalhes, mas precisa e sóbria e mais que isso, obcecada, ao ponto de que para se lembrar de um dia, levaria efetivamente um dia inteiro para repassar segundo a segundo na mente.
... Apesar desse preâmbulo, a história/comentário de hoje, é sobre esquecimento, ou antes disso - será que existe uma etapa "pré-memória", uma raiz, antessala desse cômodo?
Uma jovem oriental tirava um cochilo embaixo d'um'árvore, e então um espírito parasita entrou pelos ouvidos, se movendo nas sombras, e se alojou em sua cabeça; esse s'alimenta de memórias, e uma vez qu'empanturra, vai embora - furta o sono da vítima pra si, confundindo a pessoa, que se sente com mais vitalidade como efeito colateral. O que é escolhido como alimento, é quase aleatório, somente as lembranças mais consolidadas, como aquilo do que você faz quase todo dia, permanecem.
Esqueceu quem era a irmã que vivia afastada e não via há bastante tempo; o doce preferido, mas que comia raras vezes, os animais e seus nomes, que apareciam apenas em certas épocas do ano e por aí vai. Tinha um filho, na faixa dos doze anos, que de perto acompanhava tudo e se situava entre o intrigado e irritado com a situação toda. O marido trabalhava viajando, e apesar de não aparecer em casa fazia já muito tempo, todas as noites enquanto mexia no tear, se lembrava dele, e quando servia o café e a janta, sempre punha mesa pra três; não fosse isso, dado o tempo dele sumido, sua memória provavelmente já deveria ter sido devorada. Sua condição não tinha cura, e uma vez, se é que o parasita sairia dela, com ele para sempre iriam embora muitas memórias, talvez até a incapacitando.
Todas as noites, para não esquecer o marido que trabalhava viajando, punha a mesa pra três, e ao tear, lembrava dele - não era romântica, mas não queria perder essa memória, era importante. Para que não perdesse mais lembranças antigas, passou com ajuda do filho, a tentar aprender algo novo todos os dias, e esses aprendizados novos, repetidos dia após dia, seriam alimento para a praga que assolava sua mente. Seu companheiro falava de vez em quando de uma cidadezinha, razoavelmente próxima, então decidiu procurar o cônjugue, a começar por lá - o filho relutou, achava-a debilitada pra tal aventura, mas cedeu. Perguntando, abordando pessoas, achou-o. De certa distância, viu-o segurando um bebê, numa casinha, com outra mulher ao seu lado. Parecia contente. Não derramou uma lágrima sequer - o filho viu a cena do pai, um tanto incrédulo, mas não exatamente surpreso; algo dentro de si não parecia encaixar, e sem esse encaixe, a engrenagem das emoções não ligava, então a sensação era a de algo quase que alheio; ela deu meia-volta e foi caminhando, quase que correndo, até encontrar um abrigo e "desmaiou" na cama; dormiu por três dias ininterruptos.
... passado algum tempo, 'stava se recuperando: o parasita foi embora após o sono intenso; quando acordou e sentiu fome, não se recordava mais como fazer café ou o que 'stava a fazer ali, mas dia após dia, aprendia e reaprendia coisas; poderia ter sido muito pior.
Certa noite, fez sopa para a janta, e quando montou a mesa, intrigada e o filho muito surpreso após constatar, viram uma mesa posta para três.
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