Os dias vão pingando dos dedos como chuva - encharcam a cabeça primeiro, descendo vagarosamente pelos cabelos; descem a fronte 'té os olhos, onde podem facilmente ser confundidos com pranto, e vão deslizando, numa curiosidade crescente acerca desse objeto. No fim das mãos, fazem uma pausa demorada nos dedos, hesitando atingirem o solo rumo sua extinção. ...Tudo para um momento, no ocaso ou na meia-noite, e então cada um cai sua queda, criando uma sombra de "passados" que se projeta no vazio translúcido.
Na poça dos dias, a vida reflete-se, e Narciso se afoga. Um reflexo perfeito, visto e revisto pode ser um monstro poderoso.
Os dias que se passam, a chuva, podem da mesma forma deformar uma terra firme em pura lama, e assim como no dilúvio, matar homens e nefelins.
...Se afogar nos próprios dias, na própria terra tornada lama.
Com tudo acumulado num lago, observo a superfície espelhada - tudo calmo e breve, como vento outonal; mas todo oceano, mesmo aquele mais raso, compassivo e tranquilo, tem maremotos, e no abissal a água ferve e turva, e há coisas famintas, e há pontos de luz em meio a escuridão. Além das marolas eternas que ecoam.
A pele que machuquei aos 03 ou 04 anos não é a mesma. O coração que falhou e feriu um amor dedicado também trocou sua carne há tempo; o braço do abraço ao pai; a boca que lamentou irmã e mãe, os olhos que viram uma paixão - tudo se reconfigurou, um estranho "upgrade": a vida marcada em matéria comete suicídio quase diariamente, tal como as gotas ao solo, ficando apenas os registros dessa imagem no espelho que só pode se observar pela visão anterior.
Nenhuma escultura de pecados. Nenhuma casa feita para esperanças esquecidas; nenhum totem para ex-amores: tudo resumido e editado num filme intocável, não concreto, que roda incansável, até que o último dia caia de conta-gota nos créditos finais, e o filme pare em seu projetor. E a tempestade se torne calmaria.

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