Todos os dias ela bate a porta, uma porta que as vezes penso que poderia estar fechada, mas não está, está sempre aberta; pouco lhe diferencio as feições, pois não tenho coragem de olha-lá diretamente: tudo o que faço se resume a me conformar com sua presença, mas a noto num reflexo: ela aparece num espelho bem pequeno e vejo-a turva e embaçada. Gostaria que ficasse nítida, mas não tenho coragem de focar meus olhos nela. Há um medo tão antigo, que esmoreço só de cogitar travar conhecimento verdadeiro com a visita.
Mais de uma pessoa entra pela porta, mas uma de cada vez - ocasionalmente acontece de estarem duas no cômodo ao mesmo tempo, mas uma não se apercebe d'outra, ao menos nunca pareceu. Só lamento, com o ranger silencioso de minhas engrenagens, e observo e derreto como gelo no Sol.
De fato é mais de uma, e de fato são entidades femininas que adentram; creio que não se deem conta disso: passeiam com vagar, com seus perfumes e sorrisos, com o som ruidoso de seus calçados, e tento não olhar - normalmente quando olho, acabo em fracasso, esmagado.
Aos poucos, com um caderno no colo ou alguma ferramenta pra escrever, faço como se estivesse numa bolha, em minha própria sala, e escrevo o que acho que está ocorrendo, como elas são ou o desenrolar de possíveis histórias. É como se tivesse "um pé" no Outro Lado, observando as coisas acontecendo e tentando participar de forma parcimoniosa.
Uma casa com portas abertas facilmente é saqueada ou avariada; o vento passa pelos quartos sem pudor, derrubando qualquer coisa que esteja suspensa; entram animais procurando abrigo, poeira, gotas de chuva, espíritos.
Os ossos praticados em talento sustem as membranas finas das paredes manchadas; as dores se depositam no sótão e enclausuradas tecem seus fios finos, quilométricos e memoriosos. O gelo derrete na sala.
Uma casa assim serve apenas de morada no inverno, mas os vidros e a lareira me parecem trincados. O gelo tenta não derreter na sala.

Comentários
Postar um comentário