Canção I
Encontre algo desconhecido, á imagem e semelhança de algum
segredo profundo, oriundo dos lugares mais ignorados;
Há palavras, gestos, imagens, sons, que não, não importa:
correrás mil corridas, lamentará ao vento que empurra a relva mil vezes, mas
ainda sim, lembranças lhe perseguirão, como os raios de sol perseguem o trigo
bruxeleante nos finais de tarde campestres.
Teu peso será a própria existência e a perca gradativa de
sabor: o sexo jamais será o mesmo ‘pós constatação de dormência dos sentidos,
os olhos serão como os toriis solenes, que solitários acumulam neve entre os
sulcos das madeira, a apatia será confundida com a preguiça, a ciência do
término será um alento.
Em templos antigos, erigidos para um (D)eus há muito esquecido, a voz do perdão ecoará
pelos vitrais e as matizes nobres do lamento vão, serão as penas d’anjos
entrelaçadas em luz e sombra.
Uma canção, a última se soerguerá, das mais diversas formas:
ao seguir a queda solar rumo solo; ao provar dos venenos da terra; ao imitar a
Fênix em rito pirético; ao tentar abraçar Possêidon... Ares dá estímulo a
alguns, com dardo e projétil, Zeus concede o raio a outros, cada qual com a
escolha de sua divindade, presta homenagem última ao destino comum e ao
esquecimento, a água do Rio Ameles.
Que pensam os entes, no momento de seu término? Passará
mesmo tudo, absolutamente tudo ante os olhos? Um lugar ao sol da fraqueza, ao
desvanecimento, a interrupção.
Tudo dentro de si esguicha, ressoa, pulsa; o amor arde e
esquece; os atos poéticos esmaecem,
crueldades rilham seus dentes, mas não importa: tempo de enterrar-se na terra
do próprio medo.
PS: Foto de Mone de Castro http://www.panoramio.com/user/7420160?show=best

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