Dois albatrozes, um casal, noite gélida; é novembro – há tantas
fotos: “adoro o SESC”, a sopa quente, preço ótimo, as salas de exposição; Sebastião
Salgado é muito, muito bom! Essas fotos são realmente incríveis... Passo na
sessão onde ficam as fotos dos lugares gelados, ao norte e ao sul: meus
favoritos. Saio – o ar está cristalino, a noite mais escura que café, e as
luzes contra as fotos: trenós, árvores, aborígenes e aquele casal de albatrozes...
Passo em frente uma, duas, cinco vezes.
Anjos não tem livre-arbítrio, apesar de suspeitar que
humanos também não; eles estão lá, apostos e solenes, prontos a ouvir as
ordens da Providência - e por vezes penso, enquanto o vento desliza uivando em
meus ouvidos descobertos: afetos soterrados tornam-se anjos, prontos para
dentro do escapismo, encenarem as mais belas peças, devaneios, ideias,
projetos: basta um comando de voz. Há aquele deus grego que transformou a
amante que o rejeitou em árvore e símbolo, e de igual forma, derrotas e as
menores flamas de lembranças, lambem as folhas da casca seca da árvore do
pensar, deixando como vestígios manchas negras e breves, feridas. Essas marcas,
esses anjos, por vezes encenam uma solitária peça, num teatro interno.
“try this sadness/Tente esta tristeza
See what happens/Veja o que acontece
Dark yet senseless/Obscuro porém inconsciente
You are reckless/Você está despreocupada
Face my madness/Encare minha loucura
My life shatters/Minha vida se quebra”¹
See what happens/Veja o que acontece
Dark yet senseless/Obscuro porém inconsciente
You are reckless/Você está despreocupada
Face my madness/Encare minha loucura
My life shatters/Minha vida se quebra”¹
...Angel, Angel after dark. Nesses dias letárgicos já
passados numa sensação morna, dias, muitos dias, regados a “tanto faz” e
silêncio poluído: todas palavras não ditas se tornam névoa e evolam de minha
garganta apunhalada de remorsos. Essa névoa obstrui e mal vejo dez passos a
frente.“Onde fica o norte mesmo?...”; nada sei e provavelmente, jamais saberei
– mas então esse momento, que deixa de ser um momento fugaz, se tornar um
cenário, uma sala, dentro da qual se desenvolvem ações: o sorriso de lábios bem
cálido e leve, discreto, contra o fundo do Ibirapuera; uma corrida com cabelos
esvoaçantes, a culpa... Tudo então toma o aspecto de um anjo, se abraçando; as
pontas de suas asas se cruzam na frente dos seios e tudo ao redor escurece como
o por do Sol. Como Ziz que ao passar pelo céu, oblitera o sol com suas asas
gigantescas.
Em algum lugar, sobrevoo um oceano; estou no limiar de dois
reinos fantásticos, céu e mar, como um albatroz, ave especialista em viver
nesse meio termo. O odor do sal se deposita nas narinas e um deserto infindo é
tudo que há em redor e derredor – mais água, mais nuvens; vagueio;
testemunho essa suposta paisagem. Então num estalo vem-me a imagem do
ninho, da rocha e da terra firme, um lugar com outros albatrozes, mas visitado
brevemente. Os anjos encenam seus papéis, agora mesmo estão reunidos numa
planície e não tenho pressa alguma de escrever a cena seguinte. Penso nisso
durante o voo, um voo similar ao voo angélico, ao voo das aves. Todos agora são
anjos, anjos após a escuridão.
¹ Trecho da música "Angel After Dark", do grupo brasileiro Avec Tristesse;
Foto início: minha
Foto final: Sebastião Salgado - Genesis


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