Quantos dias sem te ver, não? Acho que deve fazer uns dez ou mais; hoje me arrumei e tentei obter uma meia-hora para te visitar, antes de voltar às aulas à noite, mas não consegui – imaginei que entraria em seu espaço, diria “oi ‘sorrisão’!” e um abraço bem apertado, bem perto de sua mesa de trabalho, mas isso não aconteceu. Te vi na sala, a boca vermelha como vinho de artéria, as mãos belas, o cabelão; “ você ‘tá preta”, foi a frase proferida por mim; “ ‘cê ‘tá louco”, foi sua resposta. Seca. Imaginei na mesma hora minha mão deslizando em seu braço, “calma, foi brincadeira... Quis dizer que você está pretinha, andou tomando sol”, e me demoraria um pouco mais com a mão em sua pele macia. Mas não fiz nada disso. Eu acredito na justiça do sofrimento – sei que causei dores a outras pessoas, logo, me resigno em minha dor e acho que mereço, então, silencio. Acho que certas situações são como um porco-espinho, o sofrimento é uma delas, mas ele é carente e necessário, então no fechar dos braços, seus aguilhões perfuram-me o peito; em dado momento a dor deixa de ser dor pra ser outra coisa.

Certa vez a conversar com um dos meus melhores amigos (dentro de minha experiência, tive/tenho dois), ele perguntou se acredito em felicidade – “não existe felicidade”, “e em tristeza, você acredita?”, “(silêncio)”; mas bem no fundo pensei, “piamente”. “Piamente...”

Nenhuma mulher merece ser um conceito – e sei disso; qualquer pessoa é muito mais que isso, assim como os sentimentos não são apenas sentimentos, o tempo é diferente do que o senso comum diz ser, a verdade também, etc... Não dá pra resumir uma pessoa, e justamente por isso, cria-se algo para que seja possível se ligar a ela d’alguma forma. “Djinn”: é uma garota com um belo sorrisão e que de início não me chamou a atenção; sonhei certa vez que tomava um fora dela e tomei de fato, na vida real, mas também sonhei que conhecia a família dela; sonhei que a abraçava na frente de nossos colegas, sonhei que nos deitávamos juntos e que olhava bem fundo nos olhos dela, e deslizava minha mão em seus cabelos, como Freyr nos cabelos de Gerda: com afeto que também é refúgio e consolo. Um rio de águas tranquilas. Sonhei tudo isso e não acho nenhum deles disparatados, nem mesmo o do “fora”: são sonhos concrescíveis por sinal. A tag/marcador é um trocadilho com o diminutivo de seu nome, assim como faço com a “Die”. Poderiam dizer que estou viajando ou sendo louco, e talvez esteja mesmo. Acredito em poesia nos atos, em coisas que podem virar livros, quadrinhos, música, filme – a vida imita a arte, o contrário também é possível, por isso minha loucura. Djinn é Djinn, porque além da referência fonética, ela é meu desejo de desejar, de desejar que esses sonhos se tornem realidade, de desejar que sua cara “marrenta” esconda um afago demorado e questões nas quais eu possa ajudar e fazer a diferença; ela é minha vontade de enroscar meus dedos em sua nuca, segurando seu cabelão e deslizar meu nariz em sua bochecha, como um gato. Em minha fantasia vejo-a com seu bocão tingido, de olhos fechados; na extremidade das pálpebras, as pontinhas do lápis de olho, o piercing na narina, as sardas e um breve sorriso a se desenhar, como se estivesse a achar algo esquecido na escuridão dos olhos fechados, num caminho que minha mão auxilia a encontrar, sob o escudo de meu corpo defronte o seu. Vejo esse filme e seu All Star cor de vinho. “Djinn” e o meu primeiro desejo: desejar.

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