Espera



Essa tal de “espera”: está de pé no cais e vê tudo em slow-motion, com aquele ar de nostalgia precoce. Não sei por que evoco-a como entidade feminina – talvez seja um clichê de filmes antigos nos substratos da memória, nos quais as moças ficavam paradas na varanda com seus lenços vendo os homens irem para a guerra; por um lado penso que se essa situação, a espera, o aguardar de algo a acontecer, também pode ser descrito como algo masculino: e daí do substrato da memória, me vem a escola dominical e a menção ao “silêncio interbíblico”, ou algo do gênero, que foi o período entre a elaboração dos dois Testamentos, Velho e Novo. Essa pausa tem o ar de soldado britânico, com um longo chapéu e baioneta apontada para o céu.

Não sei onde quero chegar, mas é curioso pensar como as esperas podem ser determinantes para a existência, mas ao mesmo tempo um tanto ilusórias talvez, ainda que me faltem ferramentas no momento para que possa dizer acerca do quê.

Esperar um amor, esperar um emprego, esperar ser mais maduro, esperar o momento certo – paralisias colocadas talvez para ritmar a percepção de existência, que parece ser algo cheio de movimentos. Assim, tudo fica como uma dança: pra lá, pra cá, para-gira, volta, encosta...
Durante um breve tempo no qual tive aulas de Butoh, recordo de meu professor dizer que segundo a filosofia dessa dança-teatro oriental, há dois momentos em tudo: o “um”, no qual há movimento, e o “zero”, que é a reflexão, a pausa – filosofia que rege o mundo dos softwares d’alguma forma também, acelera nosso mundo, mas no caso da moça vendo um futuro parceiro dar-lhe as costas, a paralisia abrange expectativa, alguma noção de predestinação/sistemas fechados, a projeção de uma história/figura, que lhe ocorre na mente, mas assim como os frutos de uma árvore, terão que aguardar para serem degustados.

Nessa vida cheia de códigos e rapidez, esse ponto de congelamento me parece essencial: já perdi as contas de como já ouvi testemunhos de ações impensadas, imediatas, sem espera alguma – sexo imediato, filhos imediatos, emprego imediato, se alimentar imediatamente, fazer suas tarefas de bate-pronto, tudo num dançar contínuo e maquinal.Um estágio similar ao das árvores, algo comatoso, algo meditativo: uma cidade sitiada que assiste os inimigos construindo uma trebuchet para seu próprio aniquilamento, ou a mãe que sente e vê seu corpo fomentar o embrião.

...Ok, mas o que espero? Enquanto os tentáculos dessa pergunta deslizam vagarosamente pelos meus plexos, toca-se as paredes um silêncio calmo, cálido e existencial, como se estivesse as portas da velha biblioteca de Alexandria, emulando em minhas narinas o aroma dos pergaminhos antigos. Na espera, dá pra ouvir o coração pulsar, o cérebro lateja, músculos tremulam – poxa! Ao que tudo indica está-se vivo, mas... E daí? O que isso significa? Os pensamentos deslizam como num navio e atravessam a linha de sombra, esperando pela tempestade. 

Trilha Sonora: My Dying Bride - "Two Winters Only"; Rwake - "Was Only a Dream"

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