Perdas



“Quando morreu a avó do Paço o pai chorou, o que nunca tinha feito. Lourença ficou um bocado assustada. Tinha vergonha, não sentia nada. Até achava que o pai exagerava. A avó era tão velha e mirrada (...), queria fazer alguma coisa (...), mas não sabia o quê. (...) Lourença entendia: era como ir ao teatro, e quem está de luto não vai ao teatro.”
De “Vento, areia e amoras bravas”, Agustina Bessa-Luís


Assim como a personagem, a garotinha em plena pré-adolescência do livro da portuguesa Bessa-Luís, muitas vezes coloca-se numa situação mais ou menos assim: a vida acontece, tu assiste e tira suas conclusões, como se fosse uma novela ou algo do tipo. No caso, era a novela do luto, ou teatro, para usar a analogia do livro que citei acima em negrito - mas nesse caso tudo ficou muito esquisito pois simular essas ações é contra a natureza de espetáculo desses dias que a folha do calendário devora: há uma confusão, vezes silenciosa, vezes crescente, para saber que atitude tomar, mas se existe algo certeiro nessa história de luto, é que há os que participam, os que assistem e os que nem um, nem outro, apenas o ignoram.

É fácil ignorar o luto distante, que não tem ligação alguma com o afeto: não derramei lagrima alguma e nem lamentei de verdade a morte do Chico Anysio; nem mesmo sua obra surtiu algo contundente o suficiente para que lamentasse; ao passo que segurei dentro de mim o choro que vinha pela morte de Jiraiya. Eventualmente algo é tão próximo ou há a crença que é, que o luto se abafa, se disfarça e vai não sei pra onde: recentemente tive o prazer de ler Valsa com Bashir, que antes de ser filme foi Graphic Novel, e lembro de uma das falas na qual um dos personagens dizia que para se proteger um soldado passou a tratar tudo que ocorria com ele como se fosse um evento externo e ele era o fotógrafo; havia uma lente entre ele e a realidade e sua forma de lidar com os traumas foi tratá-los como modelos prontos para o clique; logo, acho que a garota Lourença, do texto do cabeçalho, de certa forma fotografou tudo que estava acontecendo. Seu pai lamentou, a avó não sabia o que fazer. Era um espetáculo.

Quantos lutos a Terra presenciou? Hoje lamentamos muito mais uma vida que se perde, mas a mil anos não era assim, visto que matar era forma de entretenimento quase. O número de agonias que se apagaram como o fogo de uma vela deve ter sido algo intolerável.

Há os lutos simbólicos também e fico pensando em qual é o espetáculo que se trama por trás dessas cenas que se repetem e prosseguem - há perdas que ficam estagnadas mas vivas, assim como uma árvore: ela não precisa se mexer para provar que está viva, ela fica parada, toma água. luz, cresce e está sujeita a tempestades, mas está lá, com raízes profundas e um tronco firme; é o tipo de luto que passou do nível de encenação para se tornar algo autônomo e parte da paisagem do espírito. Se pudesse passar a vida não na visão de câmera lenta e autocentrada que temos, mas sob a impressão temporal dos planetas ou estrelas, acho que esse "abre e fecha" de perdas e não-perdas iria dar origem ao som de uma percussão super rápida e contínua, ou antes, iria ser como uma lâmpada fluorescente: a luz acende e apaga, tudo tão rápido, que há a ilusão de uma luz contínua. É tanta morte que dessa e seu pisca-pisca incessante com os momentos subsequentes, a claridade de uma forma bem estranha prevalece e engana os olhos.

Da morte, das raízes, do esquecimento, daquele alívio que dá por um breve momento pelo fato de estar aqui ainda, nessa Terra corrompida, advém um leve sorriso de satisfação. Uma hora todos deixarão de existir e não faço ideia de quem irá lamentar ou assistir o desaparecimento de todas as pessoas, ou o que lembrarão de minha geração e de minha vida daqui alguns séculos.

Dentro de meu escapismo, há um pequeno pomar de árvores de luto - algumas rego com frequência, outras finjo que não vejo, pois sua visão é forte demais para mim, outras são pequenas e acabo pisando-as, mas aí reparo meu equívoco e peço desculpas. Das maiores árvores colho frutos levemente venenosos, mas não ligo. Veneno também é tempero.

Dias de luta pelo luto e de lembrar do inevitável esquecimento. Que a perda perdoe.





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