"Rose" [2005-2007]
Seu nome me é muito familiar – é o mesmo de minha mãe; como
já disse numa outra carta, tive o privilégio de ter várias mães ao longo de quase
três décadas de vida, e você foi uma delas. Sua casa me lembrava uma das casas
nas quais morei nos tempos em que tinha camaradas bem próximos: eles iam até
lá, tomavam meu chá, comiam minha comida, assistiam minha tv, e adorava tudo
aquilo, aquela energia jovem e cálida, com pessoas fazendo piadas e contando
anedotas o tempo inteiro, e isso foi dois anos antes de começar a frequentar
sua casa; a sensação que sentia por lá era parecida, bem parecida.
Sei que te magoei algumas vezes: quando me presenteou
com um chaveirinho da Pepsi, em forma de limão, não fiz cara de entusiasmo, pareceu que eu não tinha gostado do presente, mas saiba Rose, gostei sim!, não sei o
porquê de minha reação pálida, e sei que ficou ressentida; e o pior foi do
episódio da morte do Danilo, eu não ter ido ao enterro... Lamento, lamento
profundamente...
Chegava a noite normalmente, e hoje já não me recordo de
onde vinha ou que rotina seguia antes de bater no seu portão; lá estavam suas
filhas, uma muito nova (sempre ficava com “o pé atrás” para tentar qualquer
coisa com uma mulher muito mais nova, desde aquela época); outra namorando; o
Danilo, que descanse em paz, o bebê, seu marido que me deu discos de Heavy
Metal muito legais! Dentre eles um single do Metallica e meu primeiro Led Zeppelin... "All My Love", minha música predileta deles ...Lá estava uma casa cheia de amigos, você a matriarca,
cheia de bonacheirice, os gatos...
Tudo começou com uma gatinha angorá turca, branca, bem lindinha, um pouco
adoentada e que mal miava; ela era dócil e mais apegada que qualquer bichinho que já tive; foi uma das várias coisas
queridas que me fugiram e que ainda doem, apesar de indolores, assim como você. Prometi uma visita que
jamais se concretizou, e sei que de lá pra cá, passados dez anos, você adoeceu
e muita coisa aconteceu; houve alguns lutos, uma afirmação de sua crença no
protestantismo, enfim..., namorei por quase quatro anos e você, assim como quase todos que me alicerçaram em algum momento, não tiveram o prazer de conhecê-la, durante o período em que estive com ela. Lamento.
...Nesse momento, enquanto digito, passa um filme em minha
cabeça, com várias cenas picotadas e rapidinhas: dos filmes que assisti na companhia de sua família; você
me oferecendo janta; as piadas e “tirações” que você e suas filhas faziam
comigo; as baladas com Danilo e cia, além dos sábados e manhã em que íamos juntos trabalhar no lava-rápido; seu sorriso tímido como o do Chet Baker,
por causa da falha nos dentes; os olhos que indicavam várias noites em claro; tenho para com você uma dívida que ainda não paguei, uma dívida pequena em
termos financeiros por sinal: quando houve a prisão de meu pai, lembro de como
me estendeu a mão; estava então numa casa escura, com o espírito escurecendo e hoje
me parece que seu aconchego era o oposto da situação pela qual estava passando; eu era um cristão abdicando de minhas convicções; você e suas filhas saiam do simples “deísmo”,
para uma afirmação e hasteamento de suas crenças, para crenças que eu estava deixando; eu passava cada
vez mais dias querendo me entregar, ficar deitado simplesmente, vendo como o
sol ia embora e a noite prevalecia, enquanto que fosse dentro de você, sua luz
interior, fosse em sua habitação, a luz estava sempre acessa, dia e noite.
Até hoje não sei por que não fui ao enterro de seu filho,
que me estimava por sinal. Decepcionei ele também – parece que já naquela época fui do
tipo que primeiro arranca um sorriso, para causar choro ou lamento no momento
seguinte, e com o Danilo foi assim: ele me convidou para um grupo de
pensadores, algo que seria bom para mim e não correspondi a ele e nem a mim, decepcionando-o.
Talvez não me despedi porque não gosto de despedidas; talvez por vergonha;
talvez porque não sabia direito se queria, se tinha vontade de ir a um enterro;
talvez, Rose, por todos esses motivos juntos e mais um: minha mãe aprendeu com
uma amiga que um caixão tem quatro, seis alças no máximo – os maiores amigos
que você têm no momento de sua morte, são aqueles que se dispõe a sentir o peso
do luto e estender a mão para segurar as alças dele, segurar uma extensão de
seu corpo uma última vez, sentir seu peso e dar o derradeiro "tchau!", "foi bom", etc; não fui um dos melhores amigos do Danilo, mas, uma
vez lá, talvez me sentisse na obrigação de segurar uma das alças, tomando um
lugar do qual não me fazia digno. Talvez por isso, além da minha constante
falta de organização é que não fui lhe ver ainda.
Sou grato pelas risadas, filmes e tirações de sarro, mesmo
aquelas as minhas custas, rs. Foi uma honra ter estado em sua vida,
ainda que brevemente.
PS: Essa capa do Led faz todo sentido pra mim agora. Obrigado novamente, Rose, e agradeço pela "Lili" também, adorava aquela gata.


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