"Celebrate, terrify me/ Don't mystify your love"
Eu lhe via à tarde antes de ir para a pizzaria: as vezes víamos filmes, as vezes conversávamos ou íamos até a casa da sua avó, ou íamos comer bolo, ou apenas ficávamos juntos. Mas a relação estava derretida como o chocolate que lhe dei. Anos antes, era uma criança boa em imaginar coisas, e em causar pequenos acidentes, quebras, desmontagens - reparos não eram meu forte e continuam sendo um ponto baixo. Como não poderia deixar de ser, não fiz muitos reparos em nós.
Morte por abandono ou pouco cuidado: a oficina cultural onde te conheci "faleceu". Talvez as vozes cantando a canção judaica da colheita ainda reverberem por lá. A colheita não aconteceu. A pizzaria está falecendo. Anos antes uma relação cessou por falta de manutenção, me endividei por falta de manutenção, e alguns filhotes que encontrei também tiveram de mim menos do que precisavam. Não posso engolir meu luto.
Seu nome não é "Die", e sim, acho que vi o seu "pior". Dentre várias outras coisas é isso que ocorre numa relação: conhecer os porões do outro e de si mesmo. Vislumbrei seu sonhos e pavores. Ainda estou com eles. Alguns comem a poeira de minha identidade(s). Não me importo muito.
Ao que parece, hoje ocupo um lugar que um dia foi do "Daime": um trauma. Sem pratos limpos, sem últimas palavras, diplomacia ou devoluções - também não posso me conformar: acho essa tristeza rica, e não posso abrir mão de uma das poucas coisas que podem ser perenes pra mim, que é esse sentimento de perda. De algum ponto de meu vazio, lhe observo. Queria ser um deus para lhe mistificar, para fazer coisas melhores, mas só posso me lamentar e ser covarde, como você disse que estou sendo. "Se torne um homem que então você terá uma mulher". Obrigado por me ajudar após tanto tempo - após conversas e observações precisas: esse foi um ótimo conselho, o melhor.
Posso estar completamente errado, mas nas poucas vezes que tive conversas mais "existenciais" contigo, não compreendeu muito o que dizia ou lembrava daquilo que falava sentir. Quando dizia que sentia e entendia como você estava, parecia duvidar, o que pra ser justo, dava motivos; mas você só queria ser "feliz", ser uma garota "normal", pois você se sentia diferente por causa da condição psíquica. Não era pra ser Tristania, era pra ser Beatles. Não era pra ser "Nip/Tuck", era pra ser Sakura Cards Captors, ser especial, mas por um outro viés que não o estranhamento, o luto retido.
Lembro de quando disse que lhe "usei como depósito", para falar de meus problemas; realmente reclamava muitas vezes de diversas coisas, mas também silenciava, e muito. Depositei em mim várias vezes suas queixas sobre seus pais, seu emprego, suas brigas na internet e não me senti usado por isso. Você disse que eu não mudava, pois ainda ouvia Katatonia - pode ser que esteja certa, mas se éramos similares, tornamo-nos bem diferentes - apesar de sua configuração mental ainda me parecer similar a minha e vice-versa. Em outro contexto, seriamos bons amigos hoje. Não tenho dúvidas.
"Meus" pedaços se foram: fotos deletadas, quadros vendidos, perfis bloqueados. "Você quer dizer alguma coisa? Aproveita agora, que estou aqui". Não disse, mas quase um mês antes disse, o que poderia ter dito naquela "oportunidade" que você me deu e apaguei, você leu e me odiou. "Não me interessa", repetido a exaustão e dizendo que meus textos são longos. Me ameaçando pelo que sinto, pelo que disse.
Die: "Celebrate, terrify me/ Don't mystify your love".
O destino foi escrito com mãos trêmulas e pouco proativas, em erros, desencontros; me alimentei de nossa tristeza e expectativas quebradas, e o "Paradise" não veio em socorro, reverter a entropia. Será que eu fui sua maior perda ao menos?
Paradise Lost - Mystify

Comentários
Postar um comentário