Passado do Passado em Chamas



As imagens das pessoas após ou durante seus falecimentos me espantam: vi o monge que se incendiou, sua pele derretendo e o vermelho do sangue se misturando com as chamas alaranjadas, seu rosto desfigurando, apesar de plácido; vi o enforcado que se abandonou na própria casa - estava inchado, não parecia um humano - tudo isso e muito mais é bem aterrador: cá estou, num momento, situado nessa época e num instante, tudo pode voltar a ser vazio e escuro. Como comentei certa vez, numa outra postagem, me lembro vagamente da escuridão, ou antes acho que me lembro. Posso estar enganado afinal de contas. Como as pessoas não surtam pensando nessas coisas, vida, morte e afins? Devo ser muito ignorante; fico completamente perplexo ao pensar na minha condição de ser temporal e confinado na Terra; fico estarrecido com a noção de tamanho que há entre nosso planeta e o Sol, por exemplo, e em como minha época passará e não testemunharei mais nada.

Lá pelos 14, 15 anos, nem pensava nessas coisas: via os filmes de ação de Hollywood e achava tudo muito legal e relativamente simples; viver bem seria "ser feliz", mas nunca pensava no que isso significava. Que porra é "ser feliz"?

Acho que com efeito, "ser feliz" é algo próximo de uma escolha; digo "próximo", porque acho que não é bem uma escolha e ao mesmo tempo é mais que isso. De certa forma pode-se escolher no que acredita, e a crença, essa sim, é um dos fatores determinantes - conheci uma garota (linda por sinal), que dizia que "pegava rápido 'as coisas' ". Isso é uma crença: esta no caso, serve (entre outras coisas), para amarrar ações/conceitos que não estariam amarrados de outra forma; nesse caso, compreensão (pegar) e rapidez não são funções correlatas, não necessariamente; o que quero dizer, com o exemplo da crença e com a frase, é que a frase da minha amiga não é qualquer frase - é uma fresta, uma amostragem da construção psíquica dela, um de seus blocos constitutivos, e a solidez de sua crença nesse ponto apenas confirma a observação. Com esse tipo de bloco e mais algumas escolhas, você opta o que vislumbrar ou não, e aí as coisas ficam interessantes, pois assim como nosso olho não vê toda forma de "luz", não conseguimos enxergar todos, aliás, vemos muito pouco de tudo, seja a "realidade", ou mesmo a nós mesmos e forma como agimos e nos comportamos.

Fico um pouco frustrado pois me parece que para ser feliz terei que me contentar com o formato que a vida tem e com as crenças que estão disponíveis pra mim hoje, e não me parece que ao fazer esse tipo de escolha estou sendo "honesto", nem comigo, nem com ninguém. Me pergunto como que as pessoas não piram e estouram os miolos depois de pensar; será que pensam? Dá vontade de dizer para alguns "lamento filho, não há nada 'depois' daqui". Talvez o monge tenha se incinerado por ter pensado demais, e o mesmo para o homem enforcado. Difícil acreditar que está-se vivo. Como não desconfiar da própria certeza?



Trilha Sonora: Paradise Lost - Two Worlds

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