Vez ou outra, após alguma decepção, ao abrir a boca ouvia "você está na defensiva!". Por quê? Estou mesmo? Será que estou? - pra mim estava me explicando, mas agora não consigo ter mais certeza. Nunca me perguntou de fato o por quê, por quê dessa forma; nem eu me perguntava, mas agora, de novo, não, não tenho certeza. O porquê importa? Não sei, não sei dizer. Acho que há coisas para as quais as palavras não funcionam muito bem.
Ela me falou sobre seu pesadelo com escadarias sem fim, sobre um sonho com bruxas e espelhos que daria roteiro para filme fantástico, sobre um sonho com um duplo. Os recriei e assisti, assisti, re-assisti, assisti novamente. Os vejo ainda hoje. Tentei ver com outros olhos, olhos não meus. "Se eu fosse uma serpente, e tivesse minha visão baseada no calor, como enxergaria?" - isso constituía um exemplo de problema pra mim. Como enxergaria com olhos que não me pertencem?
Nenhuma questão é como um homem condenado apodrecendo no calabouço. Parede alguma retém seus urros. Pode-se sair para passear e tomar sorvete, fazendo de conta que essas coisas são como homens esquecidos em suas celas num presídio qualquer, mas não são, e uma hora os demônios roem as paredes. Depois que isso acontece, as coisas ficam interessantes.
Para uma visão mais privilegiada, mais perda, mais (morte), podem ser necessárias, para aproximar os sentidos, para o privilégio da autophobia: certas coisas só são possíveis de serem devidamente percebidas sob estados específicos - é como revelar um filme, que exige uma escuridão profunda como condição para tornar a imagem possível e nítida.
Será que ela processava o pensamento de forma similar a minha? Não sei, não consigo sabê-lo, mas hoje acho que não, apesar da proximidade
Precisaria de mais (morte), mais perda; se estivesse em chamas, talvez com minhas orbes derretidas, então tudo ficasse extremamente claro, como nunca ficou. Uma cegueira necessária, uma nova escuridão, que talvez me trouxesse respostas, com meus ossos encharcados de luz e calor. Há coisas que não há como saber vivo.
PS: Imagem do poster do curta-metragem "Connected"

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