III/XXVI

 



Normalmente sempre se evocam imagens tocantes, e vez ou outra sensações ao relatar uma história - neve, um entardecer, como algo é quente ou frio, a sensação e peso da água; em termos comparativos, as notas compridas, com fermata na introdução de "Nowhere" do Katatonia, são como as matizes avermelhadas do pôr do Sol, ao longo da cúpula celeste que se fecha e, pouco a pouco abre para a escuridão; se a velocidade de "Abscission" um Black metal técnico e veloz do Deathspell Omega é como uma tempestade de verão, com gotas violentas em contraste com o calor, o arrastar de "The Snow in my Hand" do My Dying Bride, é exatamente o oposto: a sensação lerda e calma da neve derretendo nas mãos, diminuindo o batimento cardíaco; a respiração gelada e ardida em "14th April" do Swallow the Sun. Sons como cores, calor, frio, imagens. Se um parasita lhe obstrui os olhos, criando uma esfera negra em seu centro, como o seriam os parasitas daquilo que se ouve?


... Em exílio, entre montanhas que barram ventos, desmembra-os como órgãos de Deus, mal e mal, esses penetrariam um lugar assim; dó e dor, dolo e dor; alimentar-se de Silêncio, quietude; fonte e fome, fome e áfono; as vozes são como metrópoles; um deserto, no qual os próprios passos tornam-se altos em demasia devido ao contraste - é a trilha da "Peregrina Sublime". Nesse cenário, o som é uma iguaria para um parasita, alimentando-se das vibrações dos tímpanos, passo a passo, peça e passo, pulso e passo. Devora e ensurdece, assim seria, como a já citada mancha negra na visão, até que seus passos caminhem rumo ao Silêncio total, uma "Total Absence of Light", por comparação. 


   Respire.


   Nesse mesmo ar, silêncio, 

   respire.

... Alguns caldeus declararam sua fé em deuses antigos, ou na Igreja de Marcos, e essa vibração ainda está aqui; o atrito do ar contra a cartilagem rija da traquéia mexe comigo, me lembra trilhos, nevasca, tempestades, oceano, talvez porquê todas essas vibrações, ainda que praticamente extintas, ainda movem fracamente algo por aqui, ainda movam francamente algo por aqui.


   ... Respire. 

   [Ela se foi]


   Mãos nos ouvidos, para prestar atenção aos sons da própria vida, uma vibração, um som fraturado e grave, como um filho de Ruído Branco. O Som da Vida, deveria ser algo capaz de matar qualquer surdez, essa deveria se comover e cair ao tentar se alimentar disso, como um veneno que corrompe e dói. O som da Vida da Terra: titânico, gutural, a vida quente da Terra jorra d'um vulcão, têm-se a sensação fluida, o amor da destruição, trabalhando na mudança das coisas; esse som, quase a lhe furtar também a capacidade de ouvir qualquer outro som. A vida da Terra maior que a sua; a destruição ama, o silêncio põe-se a peregrinar. "Redemption Lost", do Ahab, contém em si, o som equivalente da Luz escaldante aquecendo o convéz de um navio condenado e desolado em alto-mar, ao meio-dia; "Glemseles Elv", do Burzum, o som da carruagem de um deus antigo saindo da escuridão do Submundo, rumo a superfície após meses. "Requiem for a Turd World", do Leviathan, é uma testemunha que por acidente 'steve em Hiroshima após um passeio, e presenciou a bomba eclodindo próxima demais. Queimaduras, dor, aniquilação - o Eschaton trazido para o oriente, a forma d'um Ophanim em todo seu esplendor destrutivo, deitando a força todos a serviço do Destino. O estrondo d'asas batendo uma única vez. Ouvimos muito pouco, animais ouvem muito mais, e espíritos falam em freqüências que nem mesmo os animais ouvem. Para matar um parasita da audição, guiar-se pelas vibrações, até a vida e violência mais próxima, nem que seja pela última vez, com o arrastar de um nó corredio, ou o metálico d'uma carabina sendo municiada - um manifesto para os sons ruidosos, um templo para os quase inaudíveis e silêncio.

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