II/XXVI

 


(Vítima de cegueira externa)


   As luzes do mundo, sua beleza e desagrado; se uma cegueira muito especial atingisse os olhos - não como em "Ensaio Sobre a Cegueira", de Saramago, com um branco leitoso a fazer as vezes de breu; mas só de abrir as pálpebras, é como se um martelo batesse em advertência nas orbes recém expostas, então não há outra alternativa a não ser auto exilar-se desse sentido.


   Selar-se num aposento, faixas para se garantir que nenhuma luz venha ferir. Então descobre-se: assim como aves e répteis, que tem dois pares de pálpebras, humanos também têm; no entanto, uma é física, a outra metafísica, e se encontra sempre cerrada, nunca se abre, e está logo abaixo das pálpebras "comuns"; elas se abrem, e em meio a escuridão, vê-se o riacho da consciência, turvo de tanta luz e exuberância, um branco esverdeado calmo e forte, uma potência calma. A escuridão em redor e derredor, alimenta-se das orbes; nela vive o parasita que se alimenta de toda luz que se consiga absorver, como um ser sedento, um vampiro faminto de claridade. Espíritos, Idéias, Geometrias, Números: o Mundo de Platão se localiza entre essa dimensão que nosso Portal esquecido pode abrir.

   Lágrimas cálidas de luz derribam ao chão, molham a cabeça da áspide que se delicia; uma breve jornada para resistir ao impulso de se unir a própria fonte da vida, mergulhar para não voltar desse rio, respirar suas águas, desmanchar a própria consciência. Com muito esforço fecha-se o Portal e olhar para a Lua é um sacrifício , mas em sua ganância por luz, o parasita sai da escuridão interna, rumo a mãe dos lupíneos, cura e reflexão, mestra-Mor das ilusões, dos aspectos românticos e melancólicos. Escapa de dentro, deixando paz.


   O Portal para a fonte da vida se encontra sob's'olhos; ninguém é de facto desperto, sem a capacidade d'os'abrir, e dormir para o sono da Realidade aparente. Apenas é necessário muito cuidado, para que entre as veredas dessa nova Escuridão e o contraste absurdo do rio da Vida e derivações, não se perca, e desaprenda a abrir as pálpebras animalescas, para a Realidade de letargia e terror mudo, para a Realidade das cores e cotidiano.

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