I/XXVI



   (Como começo? Pelo verde onipresente, pelas águas do começo de tudo, e sem que isso se torne apenas uma abstração?)


   Se a mão que escreve desse vida a tinta ou a luz que se assenta na tela, folha, parede; se as palavras, cada qual em seu aspecto, dessem a destacar-se e mover-se do espaço plano, para nossas vistas, céus e nuvens, vidas. Uma mão divina, de cujas palavras que saem dos meandros d'alma e cérebro, por capricho se dessem a mergulhar pelo rio das trevas primordias em meio do trajeto das sinapses, e ao ressurgir, gotejassem toda vida nos grafemas, ideogramas ou no que for, como águas que enchem um Nilo, como hieróglifos a falar seu copta ancestral, tímido e sombrio, sem que os ouvidos houvessem solicitado - consegue apreender um aspecto para isso?


   Escrever não é fácil, por vezes patético, divino, monstruoso, frágil, indiferente - um ritual que não pode ser interrompido; deve haver um tipo de princípio, seja de sobressalto ou não, mas o meio e o fim, sempre devem ser conscientes, presentes ou no mínimo, comprometidos. Se tem-se cortado ao meio, como bicado por um corvo, parte d'alma fica retida no texto incompleto, uma queda pesada, causada por tornozelos rompidos - uma taça quebrada e vinho comungado pela metade. Uma paralisia compulsória.Tem-se que dar vida aos espíritos, palavras não-mortas, vidas dadas e sencientes, buscando seus próprios caminhos dentro dos rios. Como humilde servo das palavras, das águas e da tristeza, ponho-me como testemunha e protetor, das pequenas vidas solitárias que vivem nas florestas e das mesmas mortes que habitam os rios subterrâneos (de)mente vil. Testemunha com meia-taça a curar; testemunha com uma vista obscurecida para a luz.


   Repousando após tormento, a reclusão é abrigo, sob as copas da semiconsciência; há espaço vasto para uma mão divina - escrever, desenhar, tendo o silêncio como testemunha. Ninguém se assusta com  o murmúrio da caneta riscando, doendo e parindo sua criação protegida dentro dos limites desse santuário. Ninguém se assombra com o potencial que palavras sangrando dos dedos têm a oferecer.

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