29/09/1959
Faltam ainda alguns dias enquanto penso nisso, no assunto, evidências e fato, e escrevo; hoje seria seu ano de número 67 - eu ainda não acredito totalmente na descoberta, seu rastro de existência, e de que essa tenha encontrado seu término - ao mesmo tempo, não me surpreende de que tenha vivido pouco. Anos atrás, 2020, se não me engano, num desses eventos meio místicos, Constelação e afins, perguntando se 'stava vivo, foi-me dito "sinto a presença de algo vivo" - mas ao que parece, isso não corresponde a Verdade. Não achei sua cova, submersa sob folhas e mais folhas de burocracia; o lugar do óbito, não parece ser o mesmo, nada de represa, apenas uma casa; foi crime, suicídio, acidente? E aquela cidade... nunca ouvi falar dela, o que foi fazer lá?
... eu lamento pela calma, pela bondade jogada fora, pela maldade que deixa gosto de sangue na boca; frágil, monstruoso, humano. É certo que 'stava morto, se é que faleceu, muito antes da data apontada: pra mim, olhando de fora, sem saber como é ser você, apesar de suspeitar que se trata d'algum tipo de inferno, beirando o intolerável, você se foi em 2003, depois em 2007; quando o vi em 2016, e já falei isso, me pareceu uma criança, fosse nos trejeitos ou modo de olhar; sua pupila 'stava bastante dilatada e sem brilho, quase opaca, e comentou que era culpa da hipermetropia, que "ao ler, as letras pareciam estar pulando", mas isso também me trouxe aquele aspecto do olhar de bichinhos de desenho animado e seus grandes olhos negros. Você me parecia uma criança na ocasião, e esqueci todos seus pecados. Eu gostaria de ter feito algo a respeito, sobre seu Destino. Talvez se tivesse visitado em sua casa na zona leste; eu não fiz isso, eu não fiz tudo que 'stava ao meu alcance - talvez uma visita, e as coisas teriam tomado outro rumo não? Eu não sei o que pensar.
'stava tão bêbado que caiu? Fez mais desafetos do que daria conta, e esses vieram te cobrar? Ou não agüentou o próprio peso e cedeu sobre ele? Ou talvez, o processo iniciado anos atrás apenas se consumou e encerrou tudo naquele Ano-Novo derradeiro? Eu não sei... tudo, assim como é boa parte da Vida, está sob a crosta rija da incerteza. Parando pra pensar, é irônico: mãe teve como causa, a desidratação, seus tumores roubando ferozmente toda sua água, ao passo que você, sentiu todo o peso da água, respirou-a como um feto, até a Consciência fazer o Caminho oposto; um foi em suas últimas horas, o contrário d'outro - nenhum equilíbrio, nem na fórma de falecer. Ou apenas enganou a todos. Eu não sei o que pensar, mas me parece que sim, você se foi, independente da carnalidade. Há algo sem nome dentro de mim, acerca disso tudo e pra variar, lamento. Se tudo isso for Verdade, uma parte insinua que queria trocar de lugar contigo, mas 'staria sendo falso - eu assim como você, também odeio minha Vida, mas convenhamos que apesar dos momentos e dons tocantes, você não era uma criatura virtuosa. Não tenho sua força e resistência; como boa pedra áspera que era, mas ao menos nesse ponto, lhe superei - sou melhor no tratar (não que seja grande coisa também). Gostaria de ter o encontrado nove anos atrás por essa mesma época. Escrevo com trebuchet, pois temo que tudo isso seja mais uma de suas armas. Se tudo 'stiver bem, feliz aniversário meu querido; do oposto, descanse em paz.
Comentários
Postar um comentário