A agulha de costura passa de retalho em retalho, formando a colcha; cada descida do aguilhão fere o tecido, faz a ligação entre o que foi perdido, a parte rasgada, com seu novo companheiro, um quadradinho colorido.
O tecido original pouco liga para os furos que lhe são feitos - a linha que desliza e faz novas ligações é que é importante, e essa colcha de retalhos, preparada para aquecer no inverno, ainda está sendo feita e não dá pra saber quando ficará pronta.
Os olhos atravessam incontáveis sóis durante a tarefa; eles deixam rastros de luz na parede curvada do Céu; os olhos veem muitas, muitas mesas: de bares, de sala de aula, de centros culturais, de praças; tardes claras e cálidas fazem a visão turvar - parece que há dias em que está-se sob o calor de mil colchas, já devidamente terminadas, noutros o silêncio de jardins secretos comove os pelos da pele...
Cada quadrado é um "outro". A linha se alinha a visão, o Sol põe-se sob os prédios sujos da cidade; cada trama contém mistérios, quase todos abandonados ou esquecidos.
...Apesar de não ser cristão, acho que Cristo suturou a humanidade nele próprio para fazer seu cobertor - bilhões de lágrimas, cada qual quente como o mar do fim de tarde, devem ter escorrido e preenchido os poros e suas feridas abertas, como a chuva que enche buracos. As dores permearam Seu corpo - nada melhor para carregar, que as falhas, os pecados: é como se tivesse Ele pego um fio de cada quadrado, para em dor fazer sua própria colcha. Acho Cristo deve ter sido um cara legal, um costureiro de mão cheia, com retalhos invejáveis; ou melhor, com TODOS retalhos, segundo a religião.
Ele pôde desfrutar o inverno aos 33 anos. O cobertor de minha mãe ficou pronto aos 37, se não me engano; meu amigo maconheiro, Danilo "Rato", foi se enrolar nas cobertas aos 19 mais ou menos, e houve outros camaradas, uns até esquecidos e distantes, que terminaram sua tarefa antes de mim.
O Chaves terminou seu cobertor ontem. E sei que apesar da ironia dolorosa, a Chiquinha estava entre seus quadradinhos. Todos tecidos que são tocados farão parte disso.
Tenho alguns quadrados, e seguro minha agulha debilmente; as vezes erro e ela atinge a pele, fura meus dedos, faz com que tinja de vermelho tecidos claros, mas pouco ligo. Também ao ser costurado, sei que machuquei alguns alfaiates sem querer. Prefiro prestar atenção no movimento a ficar irritado.
As vezes quero que chegue logo o frio, pois calor me cansa; as vezes fico tão fissurado num tecido, tanto, que passo muito tempo sentindo-o; tem os que me comovem com sua textura e cor, e seguro-os contra o peito antes de ligar aos outros quadrados, e há os que ficaram meio de lado e os que estraguei, mas que estão no conjunto.
Quando chegar meu inverno, poderei sentir pelo tato, antes de adormecer, se deixei algum lembrete num deles, naqueles que passei muita, muita linha. Ao fechar os olhos, espero dar um sorriso breve e sereno - direi para mim mesmo, que é uma honra ter tecidos tão nobres me aquecendo, e os apertarei uma última vez.

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