Era mesmo um palco o que via e
sobre o qual pisava; era um palco como daqueles clássicos de musical
estadunidense. A luz incindiu num círculo, no qual ele estava contido, e viu as
palmas, uma série duradoura de aplausos, mas surdos, sem som algum.
Adentrou o palco sem sons,
gesticulou e assistiu como que de igual pra igual a platéia que o assistia.
Flashes, gritos, ovações; vibração alguma, nem mesmo a cardíaca lhe perturbava
as margens, a orla de sua carne.
O sexo estava sem gosto; passava
a língua em sua amante, mas nada - era como se não estivesse lá. Não sentiu, não
de verdade, as coxas dela fazendo pressão contra sua face, e não sentiu a si
mesmo. De novo.
Sua vida, um labirinto tosco,
feito por uma criança com giz de cera: preto no branco e em 2D. Sim, 2D, porque
a terceira dimensão, a da "profundidade" tinha-se ido sabe-se lá pra
onde. Não existia mais. As silhuetas de seus companheiros eram extremamente
marcadas, assustadoramente marcadas, como se estivessem contornados com um
nanquim vindo dos pesadelos. O contraste de sua visão ia e voltava - horas
berrante, fazendo sua realidade parecer um desenho mesmo, horas brando, fazendo
com que as marcações de silhuetas ficassem menos pesarosas.
Demorou pra se dar conta de tudo
isso, e quando se deu, num momento em que estava praticamente dopado, achou uma
terrível ironia falarem que o mundo tem seis, dez, talvez onze dimensões. Onde
estavam as filhas da puta?, pensou, de forma trôpega.
Numa sala escura de cinema, teve
a impressão de ver um ouroboros na porta de entrada, mas este logo sumiu; no
banheiro parou ante o espelho. Seus olhos simularam cores que não estavam ali.
O contorno de suas fantasmagóricas lágrimas, que pesadas como chuva derribavam
ao solo, singravam-lhe os dias, que vestia como se fossem um terno de luto
[(o)u] culto. As marolas reverberaram e batiam e voltavam das bordas de seu
corpo, fazendo um caos na superfície de sua face rasa, de seu
"destino".
Sabia agora o que os físicos
queriam dizer com as cordas e com "profundidade desprezível": naquele
momento sentiu-se como uma corda quântica e nos tremores de sua consciência
fetal, no debater de angústia, criou partículas insignificantes, que na mesma hora deixaram de existir.
Antes de se dar conta disso,
esqueceu.
Voltou para o palco surdo, com
sua platéia em preto e branco; repetiu o sexo triste e sem gosto com sua
companheira, sem sequer se perguntar se ela tremia ou lamentava - não trocou
palavra ou afago; repetiu no álcool, nas cores, no espetáculo. ...Nas vestes.
Uma noite um pesadelo terrível:
todos os dias que vivera, viveu-os novamente, e cada dia era um espelho posto
de frente ao outro, com os dias se refletindo numa profundidade enganosa, mas
assombrosa e infinita; no entanto, enquanto verificava sua aparência,
escorregou e caiu no vão de um dos dias: seu corpo caricato pulava de um dia
para o outro como numa cama elástica, mas de forma sempre descendente, fora da física
normal, e permaneceu nesse contínuo.
Não despertou. Sonho e realidade
imiscuíram-se; o coma foi o manifesto de sua vida.
PS: imagem extraída do filme "O Artista" (2011)
PS: imagem extraída do filme "O Artista" (2011)

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