Há um ditado popular que diz que "sonhar não custa nada", e sonha-se então, idealizando um futuro, um objetivo alcançado, uma parceria com alguém; há as ocasiões dos "e se...", que também contabilizo como sonho, mas que se dá num outro tempo, com uma situação que já teve seus desdobramentos, e aí o sonho é como as coisas estariam se outras escolhas tivessem sido feitas.
Mas tenho pensado esses dias se "sonhar", também não tem lá seus custos. Penso que há pontos nos quais o sonho projeto e o sonho onírico se encontram: há a tendência de esquecer-se de ambos, de prestar pouca atenção em ambos. Num post anterior comentei que não existe o "esquecer", mas nesse caso e em alguns outros há mesmo um esmaecimento das lembranças, um certo "apagamento". Quando um sonho é retratado no cinema, normalmente o fundo da cena fica anuviado, suave e pouco nítido, mas na verdade há sonhos que são atrozmente reais.
Há custos nessa produção - a expectativa, quase sempre inevitável, o custo de se refletir e ter que admitir alguma coisa, como uma eventual impossibilidade, e o custo de ver nesse espelho a projeção de si mesmo, com as fraquezas inclusas e aquelas feridas (sempre) pouco agradáveis.
Quase tudo que existe é feito com muito, muito espaço vazio, e muito do que se vê e sente está no campo da ilusão sensorial.
Quanto vazio há num sonho, num projeto, numa paixão?
Quando há paixão: nota-se meia-dúzia de características especiais ou necessárias, e coloca-se imaginação no resto: então ela surge, mas não tanto pela pessoa quanto pelo projeto, pela projeção, pelo sonho.
Recentemente ao conversar, reparei em minha amiga uma dose de "realidade" que imediatamente fez a parte mais maniqueísta de mim polarizá-la como sendo o oposto de mim, o também polarizado "cara-sonho".
Quando sonho se mistura com realidade, o que sai? Loucura, entusiasmo, engenhosidade, nada, caos, equilíbrio, decepção, milagre; sonhei uma possibilidade em cima de um romance sonhado. Ela também com certeza com seus sonhos, talvez "próximos" aos meus, talvez "longínquos", ainda que nesse caso esses termos de distância não sejam aplicáveis, não na verdade. Existem tantas formas de amar quanto pessoas no mundo, acho - frase que nem é minha, aliás, mas me soa como um sonho, uma possibilidade.
Na ida e vinda onírica, vejo o exercício do sonhador como o de um atleta de salto em distância - salta-se sobre os espaços vazios disso que chama-se vida, sobre dias comuns, desertos de sal. As pernas doem e há sem dúvida o risco de lesão, algo que talvez tire a capacidade de saltar através do dias e obstáculos gradativamente. E esse é mais um custo: o cansaço, o extremo cansaço.
Já sonhei me deitar com cada pessoa que amei (e creio que ainda ame: o sentimento deve estar ali em algum lugar meio empoeirado), e ainda hoje me pego nisso: enlaço ela em meus braços; vejo meus duplos; no espelho do banheiro, meu demônio interno dá as caras; vejo-me em meus empregos passados; no jardim da empresa, dezenas de pássaros decapitados; há os passados de vidas (anteriores?); trilhos de trem; viagens; minha mãe; partidas de Magic; perseguições; viagens no tempo; labirintos e escadas confusas; minha morte. E agora sei que há muito espaço oco entre cada um desses, tanto que não consigo nem contabilizar.
Mesmo que mais um custo seja posar de idiota ou perverso, inerte, preguiçoso, doentio, louco, cogitar o pouco possível faz parte dessa amálgama de abismos e labirintos. Faz parte de minha pretensão.
Uma hora, serei tão inexistente quanto a matéria que preenche os sonhos de todos. Uma hora estarei nivelado com todas as pessoas que amei e com aquelas que me amaram e não soube ou não reciproquei; nivelado com desconhecidos, um só silêncio. Meus pecados e as risadas que guardei sozinho não serão nada; num algo desolado, calma e diferença alguma com ninguém. Meu desprezo estará nas cinzas.
Mais dia, menos dia, qualquer dor dissolvida na inexistência coletiva. Sumirei, haverá uma pausa. E talvez algo sonhe comigo e com todos novamente, para repetirmos todas as histórias. Sonho com isso.
PS: foto do usuário de Flickr "Incinerator": https://www.flickr.com/photos/helmutoelkers/

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