Extremamente Alto & Incrivelmente Perto
"Oskar:
Não, você não me conhece. Não sou uma das pessoas à quem você já escreveu; também meu nome não vai estar nos cartões do Sr. Black, nada de mim até hoje foi tão falado para constar lá, ainda sou encoberto pela mundaneidade. Apenas acabei de ler a sua história, e da sua família. Bela história, Oskar.
Você me chamou pouca atenção no início. O mundo de uma criança de nove anos pra mim já é conhecido, mesmo que já um tanto distante; seu pai, já mais perto da minha idade, me interessou mais. E seus avós, ah seus avós - cada frase deles que meus olhos viam ficavam irremediavelmente gravadas por minutos nas retinas. Várias, por bem mais tempo. Algumas, não sei por quanto tempo mais, mas ainda estão lá. Talvez por consolo, ou esperança final, arrancamos algo de belo no sofrimento dos outros - talvez como um espelho invertido, jogando luz sobre sofrimento alheio somente para não vermos nosso próprio reflexo.
Mas logo fui tragado para seu mundo, Oskar. Pois na vida de qualquer um sempre achamos cacos nossos, espalhados displicentemente. A irresistível atração de julgar os outros, e a nós mesmos - mais fácil apontar o dedo para nossos erros quando são outros que os cometem, terceirizamos nossas culpas. Seu avô perdeu as palavras, ou simplesmente se deu conta da dor que elas podem trazer - e é mais fácil ver as palavras sangrarem somente pela tinta de uma caneta do que a sensação delas saírem rasgando as gengivas. Estender as mãos para dizer o Sim e o Não, nas mãos o peso fica melhor que nos ombros; onde o Sim e o Não, quando um deles pesa mais (e SEMPRE um deles pesa mais) faz você caminhar torto.
Seus avós em um erro fatal, repartindo o mundo deles Lugares Algo e Lugares Nada, mais dualidade, como o Sim e o Não, o velho erro que temos em pender a balança, e lá vem o peso nos torcendo as costas. Não se parte o mundo em Algos e Nadas, Oskar, nada é menos maniqueísta que sentimentos. Eles tanto procuraram seus lugares entre o Algo e o Nada, que esqueceram de olhar justamente a fronteira, onde ambos se tocam; é uma linha tênue, é difícil o olhar acertar o foco, e mais ainda conseguir ficar em cima dela. Sempre estamos mirando os opostos, quando procuramos o meio.
E acabamos nos dando conta que nos superestimamos, Oskar. Nos achamos especiais, contâineres de virtudes inexpugnadas, quando na verdade somos um aglomerado de defeitos unidos somente por ossos e músculos. E isso é o belo narrado na história da sua família - são defeitos empilhados em cima de defeitos, o que faz com que os brilhos tão particulares de cada um saltem aos olhos. E a BUSCA que todos nós temos, é somente por isso - pessoas com brilhos que combinem, e se encaixem, no meio desse aglomerado de defeitos que arrastamos por aí.
É uma busca difícil, Oskar. Mas, no final, as pessoas da sua família acharam. Não no momento certo, não quando deveria ser, mas no final, todos ENTENDERAM.
Siga inventando coisas antes de dormir. Na sua idade, eu fazia isso também. Quando você ficar mais velho, vai deixar de inventar coisas - uma das características da idade, ao progredir, é que as coisas materiais parecem sempre tangíveis, por mais que não sejam. Você vai passar a inventar situações, momentos, dias, pessoas. Coisas que independem de materiais e tempo, e sim de uma dose de vontade, e uma piscadela do destino. Muitas delas jamais deixarão de ser somente um plano. Algumas delas se tornarão realidade - e acredite, Oskar, você jamais esquecerá.
Não há como o mundo voltar em fast-rewind como o seu desejo, e o sonho de sua avó, Oskar. Lágrimas não retornam para dentro dos olhos. O passado é passado, e já pagamos nosso preço por ele vivido. Nenhum envelope vazio será enchido, nenhuma página em branco preenchida, nossas torres que desmoronaram não mais serão erguidas. Olhamos para nós e vemos isso, defeitos unidos por músculos e ossos, nossa armadura de vivência. Mas há brechas nessa armadura, Oskar, há luz que escapa por ela.
E com ela que iluminamos o caminho à frente.
Um abraço, Oskar.
M.K.P"
PS: esse texto NÃO é meu, mas como a internet "tragou-o", estou republicando. Explicarei a história desse texto noutro post.

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