Mentir Sem Vezes
Esquecer tem sido, aliás, creio que nunca foi um verbo que soube utilizar muito bem; muitas vezes, no decorrer dos dias e das falhas, várias e várias vezes me utilizei dessa palavra, mas não era bem isso que se passava. ...Não é verdade que havia me esquecido de dizer que não era bom o bastante, ou que havia me esquecido d'algum compromisso importante; também não era verdade que havia me esquecido de meus (pequenos?) pecados. E nem dos de outros. O termo, aquela desculpinha esfarrapada, o tal do "esqueci" nada mais era que um cobertor de mendigo, sujo e meio esburacado, mas grande o suficiente para ocultar a imagem de algo degenerado.
Assim como o Sol ao bater com a luz sobre um obelisco transforma esse num relógio, registrando os dias que supostamente passam, ao pensar sobre os eventos e seus desdobramentos possíveis e imagináveis (mais imagináveis que possíveis, diga-se), tenho a impressão que algo caminhou por aqui.
Mas vejam a loucura: o relógio não anda. O ponteiro que desliza para as 04 horas apenas roda no mesmo lugar sem parar, assim como os pensamentos nesse relógio do espírito, marcando seus respectivos momentos.
Lembro dos quatro, dos dez, dos dezesseis, vinte anos. Lembro da escola, primeira paixão, briga, namoro, fracasso, descaso. O círculo, sinônimo de algo perfeito traça seu julgamento e volta para esses números mágicos no relógio de meus dias.
São doze horas, e a memória de minha falha, talvez a mais enraizada se repete; entre um tique-taque e outro, os ouvidos tentam me enganar, fazendo ouvir o eco de notas fantasmas. Já ouvi falar que uma mentira dita cem vezes se torna verdade - talvez, se mentir para mim dizendo que não, não falhei tanto assim, isso venha a se tornar algo (verdadeiro).
Talvez se fôssemos como países, seríamos assim - lugares em que a noite dura 3 meses sem parar, só escuridão; lugares bem frios, da Escandinávia pra cima; noutros os dias são um pouco mais longos; noutros esse ciclo se distribui quase que de forma equilibrada. Agora imagine ser um país cuja noite existe por tanto tempo consecutivo; logo, seu relógio solar perderá o sentido, pois não há círculo para ser traçado, não há modelo de perfeição, apenas o escuro e a neve. Como admitir pra si que você foi a noite d'outra pessoa? E para si mesmo?
Na densidade das tormentas internas, como aquelas que em alto-mar perturbam a ordem da nau, os olhos tornam-se élficos, capazes de enxergar qualquer brevidade de luz como uma fada com seu sorriso faceiro, indicando que um destino melhor pode estabelecer-se. Uma brevidade de luz se torna um farol e logo os ânimos se levantam de novo, para em seguida serem esquecidos. Aliás, não é esquecimento, é ciclo, um ciclo como o de Hades.
O ponteiro dança sem ritmo seu jazz monótono; quando o ciclo se repete entre a hora que deveria ser o amanhecer e a hora que deveria ser o meio-dia, uma torrente de lembranças nubla o céu. Você lembra das mortes invisíveis, dos amores não vividos, das tentativas de salvar o mundo e do quanto alguns prefeririam que você não tivesse passado por seus corações.
Há corações que desconhecem a importância que os atribuímos, outros, esmagamos sem querer, mas todos são paranóicos como relógios.
Esquecer é uma tentativa de "ser" feliz, acho. Ou de se perdoar, o que dá no mesmo. Mas uma vez que se tenha desenvolvido os "olhos de elfo", para adentrar nas noites escuras, não há como esquecer: uma luz vista, por mais fraca que seja, permanece atrás das retinas, não importa quanto tempo (passe?). Esquecer é mentir cem vezes.

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