Ocorria com frequência - ajoelhava na cama, o telefone no ouvido, a janela aberta e um jogo de sombras na escuridão de uma área ajardinada. Uma hora, duas horas. Às vezes por volta das 22h ligava, às vezes as 03h. O tema: Lacuna Coil, trabalhos, filmes; seus sentimentos, minhas defesas, sua dor, minha letargia, seu esforço, meu gelo. Esperanças, desejos.

Dormia. Intranquilo como um inseto; um abismo se cavava, ou já estava cavado?

Vejamos: coerência no pensar, uma lógica tão firme que chega doía; gostava (e ainda gosta) de ser "Inteira"...; Para meu próprio orgulho, gosto de pensar que foi "uma pena", não termos trocado certos "pontos de vista", mas, no que minha concepção lhe ajudaria?

Você sempre foi a das crenças, e isso com uma convicção que duvido que terei algum dia: acreditava plenamente em sua religião, em sua doutrina, em mim, no seu modo de ser. Lembro do dia em que foi expulsa de uma comunidade e disse que faria a sua - e lá foi; me lembro disso. E teve sucesso, jamais esqueci. Convicta.

Nunca acreditei em nada com o mesmo fervor, e é engraçado, tento puxar aos 15, 16 anos, alguma crença sólida como pedra e nenhuma me parece tão firme assim - qualquer convicção minha é pó diante d'um fragmento de fé seu. Sempre fui  de hesitações, meio-termos, "incompleto". O cara que deixa os pássaros voarem a ficarem na mão, mas isso mais por displicência que por altruísmo. Não me "dei" completamente pra você, aliás, desconheço o significado disso: para mim as coisas são todas relativas, em porcentagens, em frações. Não sou homem, sou ruínas, pedaços. Não à toa machuquei tanto: ruínas são cheias de arestas, são inóspitas ainda que não pareçam.

Gostaria de poder dizer que algumas coisas que você diz acerca de mim estão erradas, mas se o fizesse estaria repetindo aquele jogo que tanto nos cansou. Gostaria de assumir o que fiz de errado, olhar nos seus olhos e assumir, mas isso implicaria em receber algum perdão em troca e sei que isso não acontecerá. Nem remissão, nem redenção, nada. Uma amiga me disse que por diversas vezes o perdão é concedido por mera conveniência, um óleo lubrificante de relações. Logo, você não me daria algo inútil pra si mesma.

Não basta auto-castigar, não basta você sabê-lo, tem que ir cada vez mais fundo. Lamento ter sido sua cela, lamento ter lhe causado mal. Só acho que você deveria parar e pensar um pouco que é verdade quando dizia que sofria quando fazia algo que lhe infringia sofrimento. Não foi só você que sentiu "um lixo". Não fiz diferente porque não sabia fazer diferente ou não conseguia.

Desde que passou a fase das baladas, passei a me sentir cada vez mais deslocado, e quando começamos um amigo felicitou o fato de estar com alguém para caminhar. Éramos similares. Em nossa tristeza: naquele ano li seus textos, todos que pude e constatei isso. Tive esperança, mas não jeito, força ou noção para construir as coisas. Meu pensamento era uma espiral, girando no próprio eixo, logo a inércia esmagou as expectativas. Esperei, aguardei. Não poderia ter acabado de outra forma.

Faz quase dois anos que me puno, isso sem contar o período de (união). Não me orgulho disso. Ah, e não existe "seguir em frente", isso é questão de ponto de vista pra mim e na verdade, acho algo quase ilusório.

Você não quer minha "felicidade"; e você também não está "destruída": o que acontece é que todo oprimido guarda um pouco do opressor dentro de si. Jamais desejei isso, mas sendo afoito, acho que se trata disso. Infelizmente. Certamente você aprendeu a bancar a indiferente, como fazia e faço; sim, porque esse estoicismo é ilusório, "bancamos" ele na verdade. Mas, indo a sua destruição, fico pensando -  hoje, você tem uma história e usa ela para remir a si mesma. Acho que era isso que eu fazia, não? Você pode se perdoar, porque passou por mim, mas na verdade, "Die", isso é quase o mesmo que não se perdoar. Esperava mais de você nesse ponto. Aliás, acho que você esperava mais de você nesse ponto.

Hoje, cada fagulha que fervilha no horizonte afetivo vem com um questionamento, se não serei a cela da pessoa, se não serei o inferno, o desconforto, enfim, algo de ruim ou incômodo. É inevitável, e quem quer ouvir o diabo?

Será que estou mais íntegro que você? ...Me parece que isso foi uma disputa para ver quem perdeu mais, quem se machucou mais, quem sentiu mais dor. Estranho... Não deveria ser assim.

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